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Gustavo Cabral

Tenho medo de defender a liberação de vacinas só com dados preliminares

Robson Mafra/AGIF/Estadão Conteúdo
Imagem: Robson Mafra/AGIF/Estadão Conteúdo
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

04/12/2020 04h00

Para quem lê minha coluna aqui no VivaBem ou tem acompanhado qualquer entrevista que dei ou meu trabalho de divulgação científica, já deve ter percebido o quanto sou um defensor do uso da vacinação como arma global de prevenção contra as doenças infecciosas. E que a vacinação é a melhor estratégia preventiva, que tem contribuído para uma organização social de forma brilhante. Minha defesa não surge como algo que acredito por simples opinião, e sim por uma visão científica inerente à minha profissão e histórico de trabalho e de vida.

Portanto, durante a pandemia da covid-19, é claro que isso não poderia ser diferente. Precisamos todos nos unir para conseguir desenvolver estratégias de controle e combate a essa pandemia, que tem gerado um prejuízo humano e financeiro incalculável e desequilibrado nações de todas as partes do planeta. Desta forma, não tem como não pensar no desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes para combater o coronavírus.

Em contrapartida, como sempre, surgem os movimentos negacionistas, antivacinas, criadores de fake news, enfim, grupos que buscam no medo das pessoas oportunidades de crescer, aparecer num cenário midiático, mesmo que custe a vida de grande parte da população.

Surge nesse cenário também a questão mercadológica e política. No caos, surgem ainda oportunidades únicas para conseguir lucros inimagináveis e a chance de obter um poder que muitos jamais conseguiriam numa condição de estabilidade social. Porém, falando de ciência, protocolos e diretrizes não mudam de acordo com o momento, seja de estabilidade, seja de caos. São os dados que nos conduzam a redirecionar os trabalhos para conseguirmos o melhor resultado que fazem algo mudar na ciência. Isso quer dizer que não teremos erros? Não, isso quer dizer que seguiremos buscando o melhor e que podemos errar, porém, com cada erro também conseguir um progresso em prol do acerto. Experimentando e melhorando, esses são alguns dos princípios da ciência.

Devido a isso, torna-se necessário questionar de forma técnica e responsável o que nos rodeia.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que todas as vacinas licenciadas para uso humano são seguras e eficientes. Isso nós afirmamos porque temos dados que mostram isso. Desta forma, lutar contra o uso de vacinação é algo que pode prejudicar a sociedade.

Em segundo lugar, o primeiro ponto deve continuar assim. Ou seja, devemos continuar desenvolvendo vacinas seguindo esse mesmo princípio de eficácia e segurança. Mas como faremos isso? Embora resumidamente, eu já expliquei o que precisamos para aprovar para uso humano uma vacina segura e eficiente. A imunização deve:

  • Ser para todas as idades
  • Só gerar efeitos adversos leves
  • Ter 50% de eficácia e proteger por ao menos seis meses
  • Ter no máximo duas doses
  • Ter estabilidade e fácil armazenamento.

Com tudo isso, teremos segurança em defender o uso das vacinas anti-covid-19 em larga escala. Sim, pessoal, uso em larga escala. Embora as solicitações de aprovação das vacinas anti-covid-19 sejam para uso emergencial, essa aplicação na verdade será em larga escala. E qualquer uma das vacinas licenciadas para uso humano pode vacinar bilhões de pessoas.

Desta forma surge meu temor, os licenciamentos que estão sendo solicitados —inclusive um já foi aprovado, o da vacina produzida pela Pfizer em conjunto com BioNTech no Reino Unido— estão sendo feitos com dados preliminares, ou seja, sem conclusão dos testes da Fase 3 dos estudos clínicos. Testes esses que realmente mostram se as vacinas são eficientes e seguras em grandes números de pessoas. Nesse caso, os números são muito importantes. Nas fases iniciais dos testes clínicos, Fase 1 e 2, testamos as vacinas em dezenas e centenas de voluntários, respectivamente, onde observamos se a vacina gera efeito colateral em curto e médio prazo, se estimula o sistema imunológico etc. Enfim, fazemos testes importantes para conduzir ou não aos testes em milhares de pessoas. Mas é nessa Fase 3 que tudo pode acontecer, quando a aplicação é feita em milhares de voluntários e que essas pessoas são expostas a infecções pelo vírus, para acompanhar a eficácia da vacina e, claro, a reprodutibilidade, ou seja, se a vacina tem efeito em diversos grupos de pessoas, desde a variedade étnica, idade, pessoas com comorbidades etc. Enfim, a fase 3 é crucial para delinear os caminhos a seguir.

Embora seja compreensivo que a população queira uma vacina o mais rapidamente possível, não é prudente levar a vacinação em massa utilizando vacinas com dados preliminares. Nenhuma das vacinas até este momento fez uma publicação em revista científica mostrando com detalhes os dados obtidos, nem como foi feita a análise de determinado resultado. Ou seja, não mostraram os números reais para que cientistas sem conflito de interesse "sabatinem" a vacina.

Não adianta divulgar informações na mídia com números pré-selecionados pela equipe que coordena os estudos só para gerar euforia social e pressão política, para em seguida "forçar" uma aprovação. Não é assim que a ciência vai ser vencida"

Os interesses empresariais e/ou políticos não podem se sobrepor a normas cientificas, pois podemos gerar prejuízos incalculáveis para população de imediato, assim como prejuízo histórico. Não podemos por nenhuma população em risco e vacinar bilhões de pessoas com uma vacina sem demonstrar todos os dados do estudo de forma técnica e transparente. Precisamos dos dados reais para levantarmos a bandeira do uso em larga escala para a população, seja qualquer uma das vacinas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.