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Gustavo Cabral

O coronavírus é o grande vencedor das eleições de 2020

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

29/11/2020 11h21

Após uma longa luta por direito a democracia (de 1964 a 1985), de muitas vidas dedicadas e tiradas, pela busca do direito de escolha, de decidir quem e quais nos representam, o Brasil consegue o grande espaço democrático, o eleitor é livre para escolher.

2020 não poderia ser diferente, ano de escolha representativa, ano eleitoral. E isso é sagrado, é o direito social. Embora, todo(a)s sabemos, aliás, quase todos (há negacionistas) que este é um ano de extrema delicadeza para com a vida humana, devido a pandemia provocada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) causador da covid-19. Doença que já tirou a vida de mais de 173 mil membros familiares, causando assim, um incalculável prejuízo humano.

Mas surge a questão: há como manter uma eleição no período de pandemia? O direito sagrado da escolha com o direito sagrado pela vida?

Nada melhor do que buscar os especialistas, técnicos em saúde pública para discutir se seria possível e como poderia acontecer. E chega-se a conclusão que sim, é possível manter as eleições de 2020, seguindo uma série de normas para que a população possa exercer o direito ao voto sem afetar ainda mais as nossas vidas.

Eis a questão, seguir normas e diretrizes aqui no Brasil não parece ser algo muito bem visto, ou pelo menos na questão prática, mesmo quando vidas de milhares de pessoas estão em risco.

Vale ressaltar que o Brasil foi o país que chegou ao pico de infecção pelo coronavírus e se manteve no auge da fatalidade por mais tempo, comparado a qualquer outro país do mundo. Mesmo assim, apesar do negacionismo, a luta conjunta entre boa parte de mídia, sociedade e cientistas, o Brasil conseguiu ter uma queda significativa das mortes provocadas pela covid-19.

Até que chega o período eleitoral, de campanha, em que toda a exaustão social é colocada em pauta, a exaustão em ter que se isolar, ficar sem trabalho, a vida piorar pela falta de perspectiva e de melhoras. Enfim, um momento perfeito para a demagogia política entrar em pauta.

Todo o diálogo de proteção pela vida foi deixado de lado quando a vontade em conquistar votos surgiu. Todo aquele discurso de "vamos proteger a vida" escorreu pelo vaso.

Não houve direita, esquerda ou centro. Partidos conservadores ou progressistas mudaram o tom da palavra, a forma de expressão sobre a pandemia, levaram incontáveis vidas para as ruas para ouvirem suas propostas, para sentir seu calor de "esperança".

Esperança essa que ressurge, a esperança da grande vitória, a vitória do coronavírus. Sim, ele venceu as grandes eleições de 2020.

É claro que vamos buscar culpados para isso. Esse é nosso dever, não é? Buscar culpados, não assumir a responsabilidade. Nós, cidadãos brasileiros, vamos buscar culpados, enquanto nos aglomerávamos no período de campanha e, claro, enquanto festejamos a vitória dos "nossos políticos".

E agora? Vamos buscar culpados para justificar o crescente número de novas mortes provocadas pela covid-19? Pois os números estão crescendo de forma alarmante e temos que lidar com isso. Ou vamos encarar a responsabilidade de cada um de nós em combater essa pandemia?

Não esperemos que a maior parte dos políticos assumam isso, pois farão o que for necessário para manter o poder.

Mas nós, cada cidadão e cidadã, precisamos fazer o que for necessário para manter a vida. Para isso, não dependerá de uma ou 10 vacinas anti-covid-19, dependerá de nossa responsabilidade diária no combate a covid-19!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.