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Fernando Guerreiro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O treino é um momento para se conhecer melhor, não só para cuidar do físico

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Imagem: iStock
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Fernando Guerreiro

Fernando Guerreiro é formado em educação física e especializado em treinamento funcional. Atleta amador, já completou ultramaratonas e triatlos, e é também head coach da We Move Brasil, equipe de treino especializada em desenvolver um estilo de vida saudável e transformador.

Colunista do VivaBem

21/08/2021 04h00

Você já olhou para o seu exercício físico como algo que vai além de cuidar da forma física ou até mesmo de ser uma válvula de escape do estresse?

Quando comecei a me exercitar, meu objetivo era estético. Então, a única coisa que importava para mim era estar com os músculos como eu gostaria, não necessariamente saudável.

Depois de um tempo passei, a aproveitar mais o tempo na academia e o meu treino se tornou um momento de esquecer todos os problemas, virou uma "válvula de escape".

A cada dificuldade que eu tinha no trabalho, a cada discussão em casa, a cada problema, eu descontava tudo na academia. Literalmente colocava para quebrar e fazia treinos incríveis.

O único problema é que, quando terminava o treino, meus problemas continuavam exatamente como estavam, não eram resolvidos simplesmente levantando muito peso no supino ou correndo 20 km. Percebi que usar o exercício físico como válvula de escape não estava mais servindo e precisava mudar isso. É essa virada de chave que eu quero contar para vocês.

Desde que foquei no esporte de alto rendimento, tudo que eu queria era fugir de uma realidade cruel, estressante, com vários problemas para resolver? Os treinos extremos e as competições geravam um certo conforto e, de certa forma, eu sentia que os problemas que tinha estavam menores. Mas não estavam. Pelo contrário, eles estavam crescendo.

Foi aí que eu me deparei com a seguinte frase: problemas administrados (e não resolvidos) são gigantes adormecidos. E a pior parte é que uma hora eles acordam, aí você não tem mais controle e o desespero bate. Foi nesse momento que eu entrei em depressão, mas essa é uma outra história —eu já falei um pouco aqui sobre como foi a volta ao esporte após superar a depressão.

A virada de chave foi olhar para o treino como um momento de encontro comigo mesmo, olhar para o treino como uma oportunidade de me conhecer melhor, de descobrir minhas fraquezas, de explorar mais minhas forças, de descobrir dentro de mim ferramentas, de desenvolver disciplina, resiliência, dedicação e coragem.

Entendi que todos esses ingredientes que me permitiam treinar mais forte, e não ter como objetivo de descontar a frustração no exercício. O treino virou o jogo. Em vez de ser algo onde tento "driblar" os problemas, passou a ser algo que faz eu me sentir mais forte e capaz para resolver qualquer tipo de problema fora da academia. Desde que essa chave virou em mim, tenho experimentado experiências que me ensinam como resolver os problemas fora dos treinos.

Um exemplo foi quando, em um treino de natação, a professora fez uma crítica muito dura à minha técnica. No momento eu quis reclamar, mas parei para observar que ela estava certa e eu realmente precisava melhorar aquilo. Entendi que a culpa por minha técnica ruim era minha negligência nos treinos, porque eu me considerava um nadador ruim e que não teria como melhorar —e como faço triatlo, focava nos treinos de ciclismo e corrida, modalidades em que sou bom.

No momento que eu decidi acabar com essa negligência com a natação, comecei a observar uma melhora constante dos meus resultados. Foi aí que percebi que algumas outras áreas da minha vida estavam sendo negligenciadas também —e da mesma forma que eu me preocupei em melhorar a minha técnica na natação, comecei a me dedicar com o mesmo empenho e preocupação nas outras áreas da minha vida.

A partir daí o treino nunca mais foi uma válvula de escape para mim. Virou um lugar em que busco por um encontro comigo mesmo, para colocar minhas fraquezas à prova e entender como posso melhorar como pessoa —e obviamente essa decisão refletiu também nos meus resultados físicos.

Eu te convido a partir de hoje para, em seus próximos treinos, analisar muito mais do que os seus resultados físicos, mas também o quanto o treino ensina sobre a sua vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL