PUBLICIDADE

Topo

Fernanda Victor

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Gordo não significa falta de saúde': reflexões sobre fala de T. Abravanel

Reprodução/Globoplay
Imagem: Reprodução/Globoplay
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fernanda Victor

Fernanda Victor é médica endocrinologista e metabologista. É titulada pela SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e mestre em ciências da saúde pela UPE (Universidade de Pernambuco)

Colunista do UOL

27/01/2022 04h00

Na última quinta-feira (20), os temas obesidade e gordofobia foram levantados pelo participante Tiago Abravanel durante uma conversa entre os brothers no "BBB 22".

Como endocrinologista, mas, antes de tudo, como médica, me senti impulsionada a esclarecer e a lançar algumas reflexões diante da seguinte declaração: "Gordo não significa falta de saúde".

Entendo que as declarações não tiveram como propósito incentivar a obesidade, mas, sim, desconstruir preconceitos e mostrar que saúde vai muito além da forma física.

No entanto, devemos deixar claro que precisamos combater a gordofobia sem romantizar a obesidade, que segue avançando.

Últimos dados do Ministério da Saúde já apontam que cerca de 20% dos brasileiros apresentam obesidade (Índice de Massa Corporal - IMC a partir de 30 kg/m2).

Não podemos ignorar o fato que a obesidade, além de ser uma doença crônica, já está bem estabelecida como fator de risco para o desenvolvimento de várias outras doenças, como diabetes, doenças cardiovasculares (infarto, acidente vascular cerebral) e alguns tipos de câncer.

Desde 2013, a obesidade foi classificada como doença (código internacional de doenças - CID E66) e vem sendo cada vez mais reconhecida como um problema crônico que requer tratamento.

Para a OMS (Organização Mundial de Saúde), obesidade é definida como acúmulo de gordura corporal com potencial de causar danos à saúde. Esse excesso de adiposidade produz e libera substâncias inflamatórias e hormônios, gerando um estado inflamatório crônico que é capaz de causar e/ou agravar problemas de saúde no indivíduo com obesidade.

Todavia, ao contrário do que muitos pensam, não é preciso chegar ao peso considerado ideal para termos benefícios. Perdas discretas de 3-5% do peso corporal já podem reduzir a inflamação do corpo e minimizar riscos de complicações relacionadas à obesidade.

Outra reflexão diz respeito ao termo 'obesidade saudável', que é utilizado para se referir às pessoas com obesidade, mas sem qualquer alteração nas taxas ou qualquer outra doença relacionada ao excesso de peso.

Esse termo suscita uma ideia equivocada, já que ter exames normais não garante, necessariamente, ter saúde.

Obesidade saudável não existe! Sem modificar o estilo de vida, é só uma questão de tempo para os prejuízos metabólicos e as limitações físicas despontarem.

Não se engane, à medida que se ganha peso e acumula gordura, mantém-se um estado de risco e os efeitos nocivos estão sendo apenas adiados.

Ao reconhecer a obesidade como doença, reduzimos o estigma e direcionamos mais pessoas com obesidade para serem cuidadas com a seriedade, o respeito e o acolhimento que merecem. Assim, as repercussões negativas da obesidade, tanto físicas quanto emocionais, podem ser atenuadas.

Em tempos de tantas polêmicas e julgamentos, torço que a diversidade de corpos seja abraçada de forma genuína, sem negarmos a necessidade de cuidados em saúde que proporcionem mais bem-estar e mais qualidade de vida; e ainda que a autoaceitação corporal não nos distancie de buscar hábitos cada vez mais saudáveis.

Independente de padrões, o melhor corpo é aquele que tem alguém (que segue buscando saúde) confortável nele.