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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando pessoas adultas proíbem, em quais locais adolescentes fazem sexo?

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

01/04/2022 04h00

Já faz quase dois anos que estou como colunista no VivaBem e, semana a semana, tenho tentado apresentar algumas reflexões sobre saúde sexual e reprodutiva, focando principalmente no desenvolvimento sexual saudável de crianças e adolescentes.

Durante o primeiro ano, eu escrevi sobre questões que considero básicas para pensar sexualidade infantojuvenil. Falamos sobre a importância do respeito ao corpo infantil, sobre adultocentrismo, sobre afetividades, a importância do SUS etc.

Neste segundo ano como colunista, tenho tentado trazer alguns debates um pouco mais difíceis de fazer, mas que são fundamentais para avançarmos na garantia do direito ao desenvolvimento sexual saudável.

Uma das reflexões difíceis é a vida sexual ativa de adolescentes. Não faz muito tempo eu escrevi um texto falando sobre a importância de nós, pessoas adultas, falarmos sobre adolescentes que já fazem sexo e como podemos agir diante dessa questão. Se você não leu o texto que estou mencionando, dá uma olhadinha clicando aqui.

Para hoje, eu proponho aprofundarmos ainda mais nessa questão da vida sexual de adolescentes, sempre lembrando que tanto o inicio da vida sexual, quanto a escolha por não fazer sexo deve ser algo escolhido por adolescentes e não imposto pela sociedade. Nós, pessoas adultas, precisamos abrir espaços de reflexão e informação para que adolescentes tomem a melhor decisão para iniciar ou não sua vida sexual.

Aqui nesse texto falaremos especificamente de adolescentes que desejam fazer sexo ou que já iniciaram suas vivências e trocas sexuais com outra pessoa de idade aproximada.

Vamos imaginar que você é mãe ou pai de uma adolescente que já iniciou a vida sexual com alguém de idade aproximada da dela. Eu compreendo que é difícil para algumas pessoas adultas aceitar que sua filha está fazendo sexo agora, afinal essa é mais uma constatação de que essa menina está crescendo e tomando suas próprias decisões, mas você deve se lembrar do dia em que a pegou em seus braços pela primeira vez e do medo que sentiu pela responsabilidade que teria dali para frente, não é? Talvez você se lembre do primeiro dia de aula e do frio na barriga de deixar sua pequena ali com outras crianças desconhecidas.

Você se lembra desses sentimentos e desafios que teve de superar na criação dessa menina e percebe que os medos e frios na barriga não te paralisaram, pelo contrário, essas sensações fizeram você crescer também como mãe, pai, avó, cuidadora.

A iniciação da vida sexual dessa adolescente é mais um desafio que essa parentalidade colocou e que você precisa lidar com respeito, e não com proibições baseadas em questões morais.

Em meu trabalho, percebo que não adianta proibir que adolescentes façam sexo entre si, pois se eles desejarem, eles farão com ou sem sua aceitação e você sequer descobrirá.
A diferença é que com a sua aceitação, pode haver diálogo entre vocês e, sem ela, poderá haver muitos riscos para adolescentes.

Já parou para pensar que se pessoas adultas negam a adolescentes o direito de escolher fazer sexo ou não, estão, na verdade, sugerindo que façam sexo às escondidas em lugares impróprios e perigosos?

Quando falamos de adolescentes que estão fazendo sexo às escondidas, estamos falando de sexo em espaços inadequados, insalubres, com pouco ou nenhuma privacidade e sujeitos à violência sexual de adultos que podem estar passando pelo local. Já pensou no quanto podemos ser melhores, se superarmos a barreira da proibição?

Repito: proibir o sexo não garante que adolescentes não farão sexo. A única coisa que a proibição gera é uma barreira no diálogo, o silêncio sobre a vida sexual de adolescentes só impõe que vivam seus prazeres sexuais em banheiros públicos, terrenos ou becos. E esses não são lugares seguros para ninguém fazer sexo, ainda mais para quem ainda sequer completou 18 anos.

Lembrando que adolescentes podem escolher o momento de fazer sexo e também podem escolher não fazer sexo, mas esse texto está pautando especificamente adolescentes que escolheram iniciar e manter a vida sexual com pessoas de idade aproximada.

E aqui não estou sugerindo que vocês transformem suas casas em motéis (até porque esses não são espaços saudáveis para adolescentes), mas sugiro que, ao abrir diálogo sobre sexo na adolescência, podemos estabelecer regras e combinados para que o sexo entre adolescentes possa acontecer em locais seguros e, mesmo que seja difícil para você assumir isso, sua casa é um local seguro para sua filha ou filho.

Quando adolescentes têm aceitação de pessoas adultas no que diz respeito ao início e continuidade da vida sexual, sentem mais segurança para conversar sobre prevenção, autocuidado e, caso haja algum tipo de violência, saberão que podem contar com você para apoiar na proteção.