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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que precisamos entender o papel fundamental da 'educadora chata'

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

11/03/2022 04h00

Volta e meia, algum adolescente me conta que conheceu uma educadora muito chata. Volta e meia, alguma educadora me procura dizendo que não aguenta mais ser a única pessoa chata de sua equipe.

Vou lhes dizer uma coisa: a educadora chata é necessária e importante.

Atenção! Não confunda educadora chata com educadora autoritária ou opressora. A educadora autoritária ou opressora é aquela que coloca seu desejo acima da importância de valorizar o desenvolvimento sexual saudável de crianças e adolescentes. Já a educadora chata é aquela que sabe da importância dos limites para o desenvolvimento infantojuvenil e, de forma prática, aponta que é possível haver liberdade com autoridade (como já nos ensinou Paulo Freire).

A educadora chata, ao dar limite, apresenta uma borda, um contorno e, muitas vezes, adolescentes ou crianças não querem ouvir que não podem fazer algo que lhes gerará algum dano emocional ou físico.

Ela, a educadora chata, é vista como chata porque nos impulsiona a enfrentar algum desafio ou a prevenir alguma situação de risco.

  • Não, um adulto não pode namorar adolescentes.
  • Fulana, volte para sua sala e na hora do intervalo você poderá conversar com seu amigo.
  • Guarde o celular, estamos vivenciando outra atividade agora.
  • Não, você não pode agredir para resolver conflitos.

A educadora chata, muitas vezes, é aquela que amplia seus horizontes e o impulsiona a ir além.

A educadora chata é uma figura muito importante no processo de atividades sobre diversos temas, inclusive, sobre sexualidade.

Muitas vezes é a tal da educadora chata que traz dados sobre as estruturas de opressão presentes no Brasil e amplia nosso olhar para o modo como a sociedade trata crianças e adolescentes.

É ela quem executa a tarefa difícil de dar limites e de ampliar olhares —coisa que muitas outras pessoas não querem fazer.

Eu mesma já vi pessoas adultas alimentando a crença de que, para serem aceitas por um grupo de adolescentes, precisam ser legais o tempo todo, e acabam se perdendo na condução de atividades, pois adolescentes percebem quando a comunicação é forçada e não é genuína.

Inevitavelmente, em algum momento, adolescentes precisarão de limites e, em algum momento, você será a pessoa a oferecer isso. É impossível ser uma pessoa legal o tempo todo. Todo mundo será a educadora chata em algum momento.

Novamente eu digo: não confunda educadora chata com educadora autoritária ou opressora.

Educadora chata é aquela que atua abordando temas que ninguém mais tem coragem de trazer. Nesse sentido, não só está tudo bem ser chata, como essa chatice pode proteger crianças e adolescentes em seu desenvolvimento.