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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cultura do estupro e cultura da pedofilia: isso existe mesmo?

Manifestação em SP pede justiça para Mari Ferrer e fim da cultura de estupro - MARCELA MATTOS/ESTADÃO CONTEÚDO
Manifestação em SP pede justiça para Mari Ferrer e fim da cultura de estupro Imagem: MARCELA MATTOS/ESTADÃO CONTEÚDO
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

28/01/2022 04h00

Certa vez, durante um diálogo sobre os impactos do machismo na adolescência, uma jovem atriz ficou indignada por eu ter usado os termos cultura do estupro e cultura da pedofilia para falar sobre as violência de gênero na infância e adolescência. Segundo essa artista, a palavra cultura deveria estar sempre atrelada somente às coisas muito bonitas da sociedade e não deveríamos juntá-la com termos como estupro ou pedofilia, que são ações de violência.

Eu entendo que muitas vezes tratamos a palavra cultura como sinônimo de teatro, música, poesia etc. Contudo é importante explicar que cultura não tem a ver só com narrativas artístico-culturais. Cultura também tem a ver com os costumes, valores e as crenças de uma sociedade.

Então, quando falamos de cultura do estupro, estamos propondo um olhar para o modo como a sociedade brasileira silencia as violências cometidas contra a sexualidade, sobretudo de meninas e mulheres. Já a cultura da pedofilia refere-se ao modo como nossa sociedade naturaliza (ou seja, trata como natural) a erotização da infância.

Em nossa sociedade é comum vermos casos de violência sexual que são tratados como menos graves dependendo de quem é a vítima. O estupro conjugal —violência sexual que ocorre dentro do casamento ou namoro— muitas vezes é visto como exagero da mulher, já que ainda existe a crença de que a esposa/namorada tem o dever de satisfazer seu marido/namorado.

Um exemplo da banalização do estupro conjugal é a velha e conhecida história de mulheres que precisam fingir que estão com dor de cabeça para que o marido não force sexo com ela, ou seja, aquela mulher não pode simplesmente dizer que não quer transar, é preciso inventar um adoecimento ou mal-estar para justificar a ausência de desejo sexual naquele momento.

Com relação à cultura da pedofilia, a banalização está muito mais explicita quando, por exemplo, erotizamos a amizade entre crianças, chamando essa interação de namoro (eu já escrevi um texto sobre isso no VivaBem). Mas a cultura da pedofilia está relacionada a uma cultura que olha para corpos infantis como objetos e fonte de prazer do imaginário adulto.

Sutilezas do cotidiano que precisam ser problematizadas, como as fantasias de estudantes ou menininhas com pirulito e "maria chiquinha", vendidas em sex-shop. Ou algumas edições de uma famosa revista erótica que mostrava mulheres nuas em posições sexuais com pirulitos na boca ou simulando uma brincadeira com bonecas e carrinhos cor-de-rosa.

São inúmeros os exemplos que podemos levantar do quanto nossa sociedade, além de erotizar a infância, ainda obrigada mulheres adultas a se comportarem como crianças ou a se parecerem com elas para serem consideradas sexualmente atraentes, depilando totalmente suas vulvas, ficando com a genitália sem pelos tal qual uma vulva infantil.

A cultura que nossa sociedade tem fortalecido ainda hoje é a cultura do estupro e da pedofilia, que reforçam a ideia de que "suas cabras devem ser presas porque o meu bode está solto" e assim vai culpabilizando meninas e mulheres pelas violências sofridas. Dessa forma, reduzimos a questão da violência sexual à cor do esmalte ou comprimento do vestido.