PUBLICIDADE

Topo

Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Expressões de afeto ou invasão? Respeitamos os limites dados pela criança?

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

03/12/2021 04h00

Eu estava na casa de uma amiga e de repente sua filha, com idade entre quatro e cinco anos, entrou na sala correndo, balançou os braços e me disse: "Bom dia, Elânia!". Eu achei esse gesto tão fofinho que não pensei duas vezes. A abracei no colo e a suspendi dando beijinhos na testa e nas bochechas. A garota se sacudiu, resmungou e gritou: "Para, para! Que saco". Ao ver a cena, minha amiga deu uma bronca na filha e explicou que a tia só estava sendo carinhosa.

Naquele momento pensei no dano que meu ato causou à menina e fiquei envergonhada de mim mesma. Pensei no quanto fui invasiva e desrespeitosa com a criança e, em vez de eu levar a bronca pela invasão do corpo da menina, foi ela quem pagou pela minha ação.

Diante daquele acontecido, refleti que jamais faria isso com uma pessoa adulta, afinal eu sei que não se deve invadir o corpo do outro daquela maneira. Ora, se eu sei que não se deve sair agarrando as pessoas, por que não apliquei essa sabedoria às experiências que envolvem crianças?

Por que, quando estou diante de uma criança, coloco-me no lugar de superioridade e me deixo levar pelo desejo de tocá-la sem considerar o respeito à sua privacidade e seu corpo? Que danos esse meu pequeno grande gesto de carinho pode causar nessa pessoa no processo de construção de seu senso de autoproteção e conhecimento de si?

Uma criança é sujeita de direitos em condição peculiar de desenvolvimento e cabe a nós, pessoas adultas, orientá-la, explicando a diferença entre toque de carinho e toque de abuso, toque de amor e toque de incômodo.

O que problematizo aqui é: como posso dizer para uma criança que ninguém deve tocar seu corpo sem permissão, se muitas vezes eu também o faço isso com ela? Como posso dizer para uma criança que se algum adulto a tocar de forma desrespeitosa, ela deve se negar a receber aquele "carinho" e pode confiar em mim para acolhê-la, se quando ela reclama de algum toque, eu a chamo de chata/mimada e não acolho seu desejo com respeito?

Beijar uma criança só por que a achei fofa não é um gesto de carinho, é um gesto invasivo.

Apertar bochechas nem sempre é algo recebido pela criança como uma expressão de amor (afinal, apertões doem!).

Quando falamos do direito ao desenvolvimento sexual saudável de crianças e adolescentes, estamos falando de corpo, desejos e de limites.

Eu acho que crianças são lindas, fofas e cheirosas e por muito tempo eu também as peguei no colo, enchi de beijos e apertões, porém já não faço mais isso. Procuro pedir permissão à criança e, se ela se nega a receber algum carinho meu, eu respeito.

Existem muitos textos e livros que falam da importância de pessoas adultas darem limites na infância, mas tenho pensado que está na hora de escrevermos e falarmos mais sobre como dar limites a nós, pessoas adultas, afinal, de modo geral, temos nos comportado de forma bem invasiva no contato com as crianças.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL