PUBLICIDADE

Topo

Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Saúde integral não é ausência de doença: viva a luta pelo SUS!

Divulgação
Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

26/11/2021 04h00

Já faz um tempo que escrevo textos aqui sobre diversos assuntos relacionados à saúde e ao bem-estar da população infantojuvenil. Abordo, principalmente, temas que falam sobre a importância da garantia de um ambiente que proporcione o desenvolvimento sexual saudável de crianças e adolescentes.

Em certos momentos, algumas pessoas me dizem ter dificuldade para identificar a temática da saúde em minha escrita, já que muito do que falo neste espaço potente de reflexão parece ter o cunho de defesa de direitos humanos. Alguns de meus escritos levantam questões diretamente ligadas à garantia de questões fundamentais como o acesso à informação sobre sexualidade, educação, cultura e cidadania.

Diante disso, percebi que se faz necessário explicar o que é saúde integral e farei isso de uma forma que seja acessível a todas as pessoas que lerem esse texto, afinal, quando escrevemos, o fazemos para comunicar o maior número possível de pessoas, e não só para um grupo específico.

Vamos começar pensando na palavra integral, que significa inteiro, completo. Então quando falamos de saúde integral, estamos dizendo que é preciso pensar a saúde para além da ausência de doenças, é preciso pensá-la considerando tudo que habita um corpo.

Nossos corpos têm um tanto de biologia, mas, além disso, somos corpos que têm história, saúde, espiritualidade (que é mais amplo do que falar de religião), cultura, nossos corpos interagem e essa interação também tem potencial para produzir saúde.

Houve um tempo em que a saúde era tratada como uma área exclusiva da medicina e o cuidado girava em torno da saúde física, priorizando apenas acabar com doenças. Dessa forma, criou-se uma ideia de que nossos corpos são unicamente biológicos e quem cuida deles é somente o médico. Isso dificultou —e ainda dificulta— a compreensão de que questões que afetam a saúde mental são sérias e não se trata de frescura, por exemplo.

Outro preconceito que gira em torno do cuidado com a saúde para além da ausência de adoecimento físico é a dificuldade que a sociedade tem para entender a importância de profissionais da educação física, arte-educação ou serviço social nos equipamentos de saúde.

Recordo de uma vizinha que ficava frustrada todas as vezes que ia à UBS (Unidade Básica de Saúde) e era atendida, nas palavras dela, "apenas" pela assistente social ou enfermeira. É importante salientar que precisamos de mais profissionais de medicina no SUS (Sistema Único de Saúde), não tenho duvidas disso, mas existem questões que demais membros da equipe das UBS têm preparação e competência para atuar.

Não quero com esse texto negar a importância da medicina na promoção à saúde, mas quero chamar a atenção para a necessidade de entendermos a saúde como algo mais amplo que a ausência de adoecimento e alargar a visão de que nossa saúde precisa ser cuidada por uma equipe multiprofissional.

Cabe dizer também que não são apenas os serviços públicos e privados que promovem saúde. Relacionar-se com outras pessoas, tecer redes de afeto e cuidado são fontes de bem-estar integral. Trago essas reflexões em dois textos que tive o prazer de escrever em 2020 para essa coluna no VivaBem. O primeiro fala sobre rede de apoio tecida ao bater laje e o segundo sobre cultura de cura.

Ressalto que o SUS é uma política incrível de promoção à saúde integral e ele é fruto da luta de mulheres de periferias, sobretudo mulheres negras periféricas.

Então, honrando minhas ancestrais que produziram tecnologia de saúde integral há séculos e valorizando o movimento de mulheres de quebrada para a criação de uma Sistema Único de Saúde, eu finalizo esse texto dizendo: viva o SUS!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL