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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Saudável e abusivo: o que ensinamos para adolescentes sobre amor romântico?

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

19/11/2021 04h00

Michele* tem 14 anos e está vivendo seu primeiro relacionamento amoroso com um garoto da mesma idade. Pedro tem 15 e está namorando uma menina dois anos mais velha que ele. Lívia namora Juliana, ambas têm 16 anos.

Michele, Pedro, Lívia e Juliana fizeram parte de uma roda de conversa online sobre namoro na adolescência, na qual fui mediadora. Havia cerca de 15 adolescentes, com idade entre 14 e 17 anos.

Inicialmente perguntei se alguém ali namorava e essas quatro pessoas disseram que sim, as demais diziam estar envolvidas em alguns flertes e até me explicaram a diferença entre "contatinho" e "crush".

"'Contatinhos' são aquelas pessoas que ficam ali 'guardadas' para quando você está se sentindo sozinha e quer conversar, paquerar, mas não necessariamente quer ficar. 'Crush' é aquela pessoa que você quer ficar, que você acha bonita." (Mirela, 14 anos).

O diálogo com o grupo fluiu de forma muito tranquila e amistosa, todo mundo ria bastante ao contar sobre amores não correspondidos e foras que levaram de pessoas que não queriam mais se relacionar. Falamos sobre a importância de viver o luto do fim de uma relação.

O grande conflito foi quando perguntei sobre o compartilhamento de senhas de redes sociais. O grupo foi praticamente unanime: "Tem que dar, sim! Se é namoro, tem que dar a senha."

Michele informou que já teve "brigas homéricas" com o namorado porque ele estava conversando com meninas que ela não gosta pelas redes sociais. Já Pedro diz que a namorada, por ter 17 anos, é mais experiente e por isso tem medo de ela encontrar jovens mais velhos no Instagram ou TikTok. Juliana monitora no Instagram as curtidas e comentários de Lívia, que por sua vez fica atenta ao horário que a namorada desliga o WhatsApp.

Todo o grupo concordou que é preciso dividir senha de aplicativos e redes sociais, afinal "quem não deve, não teme", mas ao ser perguntado qual seria a base de uma relação amorosa, contraditoriamente o grupo respondeu: confiança.

"Se a confiança é base de uma relação, vocês estariam numa relação sem base, já que não confiam nas pessoas com quem namoram e as monitoram nas redes sociais?", perguntei.

O grupo foi contraditório nas respostas sobre amor e confiança, mas admitiu que aprendeu o que é amar e relacionar-se a partir das novelas, contos de fadas e exemplos de relações dos próprios familiares.

Nas novelas, o grupo identificou que no último capítulo o amor sempre vence, basta suportarmos as dores dos episódios do cotidiano. Já nos contos de fadas, aprendeu que um dia seremos felizes para sempre, então basta esperar. Mas foi nos exemplos das relações familiares ou comunitárias que perceberam o distanciamento entre os livros, novelas e a vida real.

Isso não é tão diferente com as pessoas adultas. Nós também aprendemos sobre o que é amor romântico —esse de namorar e se casar com alguém— tendo as mesmas bases que adolescentes têm hoje e sabemos o quanto é danoso associar amor ao controle e, consequentemente, à violência e dor.

O desejo de controle no namoro aparece, por exemplo, no trecho da música "Quando Você Passa", interpretada por Sandy & Júnior nos anos 1990, que diz: "(...) se eu pudesse te prender, dominar seus sentimentos, controlar seus passos, ler sua agenda e pensamentos".

A adolescência é, muitas vezes, o momento em que acontecem os primeiros apaixonamentos e as primeiras trocas afetivo-sexuais como namoros e ficadas, e não são raros os casos em que percebemos comportamentos abusivos e controladores vindo de adolescentes. Mas é preciso lembrar que a violência no namoro adolescente não é algo da idade, mas da sociedade.

A professora e escritora bell hooks (com letras minúsculas mesmo) tem um livro excelente chamado "Tudo Sobre o Amor", no qual aponta que desde a infância aprendemos que quem ama vigia e pune. Ela diz:

"No início da adolescência, quando apanhávamos e nos diziam que essas punições eram 'para o nosso próprio bem' ou 'estou fazendo isso porque te amo', meus irmãos e eu ficávamos confusos. Por que uma punição severa era um gesto de amor?" (hooks, 2021, p. 53)

Para bell hooks —e eu concordo muito com ela—, não há amor sem justiça. Nessa perspectiva, nosso diálogo com adolescentes sobre o amor deveria ter a justiça como base. Então falar de amor seria questionar as estruturas sociais machistas, racistas, cis-heteropatriarcais** que fazem com que as relações sejam pautadas na desconfiança e vigilância da pessoa que dizemos amar.

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos personagens.
**Cis-heteropatriarcal é a estrutura social que diz que todos os corpos deveriam ser cisgênero (uma pessoa que tem anatomia, sexo e biologia alinhados com o gênero ao qual se identifica), heterossexuais e ter como base o patriarcado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL