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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Birra infantil e grosseria adolescente: mau comportamento ou dor emocional?

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

15/10/2021 04h00

Já faz um tempo que venho trazendo reflexões sobre a importância de pessoas adultas terem uma escuta e um olhar respeitosos para o modo como crianças e adolescentes falam sobre suas experiências e seus sentimentos, já que, hoje, vivemos em uma sociedade adultocêntrica.

E o que isso significa? Bem, o adultocentrismo é a ideia de que crianças e adolescentes são posse de pessoas adultas e, por isso, não têm desejos ou pensamentos próprios, e sua palavra e seus sentimentos têm menos valor e força em comparação com a experiência adulta.

Mas, se queremos proteger a saúde mental de crianças e adolescentes, precisamos olhar de forma sensível e atenta ao modo como esses indivíduos percebem o mundo. É fundamental que nós, adultos, reconheçamos que existe uma estrutura social que coloca menores de 18 anos em descredito nos diversos campos da vida —incluindo também a saúde mental e emocional.

Um exemplo comum dessa situação de desrespeito é quando uma criança ou adolescente diz aos familiares que está estressado e escuta de volta: "Não tem nenhuma responsabilidade, está estressada com o quê?".

Essa ainda é uma crença frequente entre adultos, de que crianças e adolescentes não se estressam, não se deprimem nem sentem ansiedade. Afinal o cotidiano pesado de trabalho diário e boletos vencendo é que seria realmente estressante, enquanto a infância e a juventude seriam feitas apenas de brincar e encontrar os amigos.

De fato, se analisarmos a experiência infanto-juvenil com base na nossa vivência adulta, teremos dificuldades em compreender o que estressa ou deprime esses indivíduos. Mas, se nos colocarmos abertos e disponíveis para dialogar, poderemos criar um ambiente de acolhimento e valorização da saúde mental infanto-juvenil.

Alguns comportamentos como birra, irritabilidade, choro intenso e desobediência podem ser sinal de estresse, ansiedade ou de outra fragilidade emocional na infância, embora muitos adultos tratem esses sinais como falta de respeito ou má educação.

No caso de adolescentes, o confronto, isolamento dos demais membros de casa, irritabilidade, grosseria e baixo rendimento escolar são vistos, muitas vezes, como falta de educação, preguiça ou comodismo.

Em ambos os casos, é possível que crianças e adolescentes estejam comunicando que estão em sofrimento, mas não conseguem expressar isso da forma como o universo adulto gostaria de receber essa informação.

O exercício de aproximar-se dos mais novos para estabelecer um ambiente de acolhimento e diálogo franco sobre saúde mental não é fácil, mas precisamos nos disponibilizar para fazê-lo todos os dias.

Uma dica é não esperar que a saúde mental fique frágil para propor um espaço de conversa em casa. Tente criar um momento para que todas as pessoas no ambiente doméstico possam contar suas vivências cotidianas e partilhar os sentimentos gerados a partir disso.

Além disso, você pode observar se a irritabilidade, isolamento ou confronto se intensificaram com o passar dos dias e sugerir a busca por psicoterapia.

É fundamental que possamos apontar caminhos de autocuidado desde a infância para que, ao longo da vida, crianças e adolescentes sintam-se acolhidos com os sentimentos e, se preciso, tenham o apoio psicológico de profissional da saúde mental.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL