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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cheiro de flores, gosto de abacaxi: reflexões sobre sexualidade e sexo oral

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Imagem: Getty Images
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

24/09/2021 04h00

A educação em sexualidade tem sido alvo de muitas fake news e ataques nos últimos seis anos. Contudo, não é de hoje que a população brasileira tem dificuldades para entender o que é sexualidade e qual o papel da educação nesse âmbito. Dialogar sobre sexualidade é refletir sobre corpo, autocuidado, bem-estar e acessar informações sobre direitos sexuais e reprodutivos.

Direitos sexuais são aqueles referentes ao direito de viver seus afetos e prazeres em segurança e tomar decisões sem culpa ou julgamento da sociedade. Já os direitos reprodutivos têm a ver com a decisão sobre ter ou não filhos, de que forma e quando isso acontecerá e assistência à gestação ou acesso à contracepção.

Em ambos os casos, é dever do Estado garantir que todas as pessoas terão informações de qualidade sobre o assunto e sobre os mecanismos de garantia desses direitos. A educação em sexualidade deve ser o instrumento de promoção da informação, pois ela abre espaços de reflexão sobre sexualidade, desmistificando assuntos e apresentando dados com base em estudos das diversas áreas das ciências.

Ter acesso à educação em sexualidade desde a infância proporciona um processo gradual de reflexão sobre autocuidado, autoproteção e respeito à diversidade. É importante salientar que os temas e métodos escolhidos para se trabalhar sexualidade sempre respeitarão a fase de desenvolvimento que cada pessoa está vivendo. Então é preciso sempre lembrar que as crianças vivenciam a educação sobre esse tema de uma forma bem diferente do que é vivido por adolescentes, que, por sua vez, vivenciam processos bem diferentes do que uma pessoa adulta vive, e assim por diante.

A ausência de educação em sexualidade desde a infância gera sérios danos ao desenvolvimento humano, pois dificulta o acesso a informações reais, fazendo com que cultivemos falsas crenças sobre corpo, prazer, consentimento e saúde sexual e reprodutiva.

Em meu cotidiano de trabalho, não são raras as vezes que pessoas adultas me procuraram para tirar dúvidas sobre questões que deveriam ter sido aprendidas na infância ou adolescência, como, por exemplo, o nojo do sangue menstrual, a falsa crença de que é obrigação da esposa fazer sexo com seu marido mesmo contra a vontade, achar que homens que têm pênis precisam ser máquinas sexuais, não saber a diferença entre vulva e vagina ou alimentar a ideia de que vulvas têm cheiro de bacalhau.

As falsas crenças sobre sexualidade não são sustentadas apenas pelas pessoas em suas microrrelações (namoro, família ou amizade), muitas das ideias errôneas que temos sobre sexualidade são fortalecidas pela indústria da moda, de cosméticos e higiene. Uma delas é a ideia de que as vaginas precisam ser lavadas com sabonetes especiais para adquirir uma fragrância de flores. Lembrando que vulva é a parte de fora da genitália e vagina é a parte que fica por dentro.

Certa vez, uma colega de trabalho me disse que, antes de fazer sexo, ela enrolava o dedo indicador com um lenço umedecido e colocava na vagina para limpar. Uma amiga me contou que nunca deixou que fizessem sexo oral nela porque "bacalhau só é gostoso cozido". Em ambos os casos, tratavam-se de pessoas adultas que não obtiveram a informação maravilhosa de que a vagina é autolimpante e não precisamos colocar nada dentro dela para limpar ou mudar seu cheiro. Aliás, lavar a vagina pode matar a flora natural e deixar seu corpo mais exposto a bactérias e fungos que geram infecções.

Recentemente, um grupo de adolescentes com idade entre 15 e 17 anos me disse que tem feito a dieta do suco de abacaxi. Questionados sobre o que seria isso, me disseram que o intuito é modificar o gosto do esperma, deixando-o mais doce, com gosto de suco, para que as pessoas com quem fazem sexo possam engolir sem fazer careta. Um garoto chegou a dizer que a namorada detesta engolir o esperma, mas agora que ele faz a dieta do suco ela não teria mais desculpas. Em outra atividade, com um grupo da mesma faixa etária, a dieta do abacaxi surge novamente como a solução para os problemas no namoro.

Eu sempre pergunto para as pessoas com quem trabalho ou dou palestra e oficinas se elas já sentiram o cheiro da própria genitália. Se já se tocaram para além da masturbação ou banho e se depois cheiraram as mãos. E, na maioria das vezes, a resposta é de aversão à ideia de sentir o odor do próprio corpo.

Também dialogo com homens cisgênero que dizem que só fazem sexo oral nas parceiras se elas usarem sabonetes íntimos com fragrâncias agradáveis ou se eles puderem mascar chicletes para disfarçar o cheiro e o gosto.

Sinceramente, não acredito que seja um problema as pessoas quererem experimentar sabores e cheiros no momento do sexo oral, a grande questão aqui é nossa dificuldade em aceitar que vulvas, vaginas, pênis e ânus têm seus cheiros naturais e isso não indica sujeira ou falta de autocuidado.

Recebemos, diariamente, incentivos para que nossos corpos percam seus cheiros naturais e passem a cheirar como rosas ou ter gosto de suco, mas quantas vezes você sentiu seu cheiro natural e ficou à vontade com ele na hora do sexo?

E eu repito: não vejo problemas em querermos experimentar novas fragrâncias em nossa pele ou adocicar nossos fluídos no momento do ato sexual, mas vocês já se perguntaram por que o cheiro natural de uma vulva, vagina, pênis e ânus também é visto como desagradável ou associado à falta de higiene?

Muitas das crenças sobre cheiro de vulva, pênis, vagina e ânus estão diretamente relacionadas à lacuna deixada pela ausência de educação em sexualidade ao longo de nossas vidas. Somos pessoas adultas com um vazio enorme de informações sobre nossos próprios corpos!

Existem pessoas que acreditam que defender a educação em sexualidade é defendê-la somente para infância e adolescência, mas isso não é verdade. Todo mundo precisa viver processos de conhecimento sobre essa temática. Afinal sexualidade é corpo e é com o corpo que experimentamos sentimentos e vivemos prazeres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL