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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Autocuidado e fragilidades emocionais: não sabe o que fazer? Brinque!

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

10/09/2021 04h00

Durante esse mês de setembro, muito tem se falado (e ainda se falará bastante) sobre o setembro amarelo e a importância da prevenção ao suicídio. Ano passado escrevi quatro textos sobre esse assunto e você ainda pode lê-los por aqui.

Para o mês de setembro deste ano, quero falar sobre algumas ações potentes no processo de autocuidado e promoção de saúde mental. Vamos começar nossas reflexões pensando na importância dos jogos e das brincadeiras.

Para iniciar, imagine a seguinte cena: um grupo de amigos decide passar alguns dias numa casa de praia. Lá pelo terceiro dia, todas as pessoas estão sentadas e entediadas, daí alguém se levanta e pergunta: "Não tem um dominó nessa casa? Alguém trouxe baralho ou Uno?". Você já viveu uma cena parecida? Se sim, saiba que isso é bem comum de acontecer.

Quando estamos entediados numa viagem e procuramos um jogo, pensamos que essa é uma forma de passar o tempo. Isso porque os jogos são uma espécie de brincadeira que nos proporciona momentos de relaxamento, entretém e auxilia na mudança de foco de atenção, justamente porque nos convida a voltar nossas energias para aquela atividade e, consequentemente, diminui a tensão gerada por outros pensamentos que podem ser gatilhos para fragilidades como crises de ansiedade.

Jogos coletivos, além de diminuir tensões, podem nos ajudar a sentir que fazemos parte de algum grupo, nem que seja por um instante, e nos trazem a sensação de que, naquele momento, não estamos tão sozinhos.

Mas nos atentemos: se estamos realizando jogos de competição, é muito importante que criemos formas de acolher pessoas que ganham e que perdem o jogo. Por isso, ao escolher uma atividade competitiva, é fundamental que sejamos responsáveis conosco caso ganhemos, mas também sejamos gentis ao perdermos.

Propor jogos com as pessoas que moram contigo pode ser uma forma de estreitar laços com leveza e descontração. Se você sente que essa é uma forma possível de aproximação em casa, tente fazê-la.

Os jogos são atividades que, em geral, possuem algumas regras definidas, por isso é um ótimo exercício para aprender a lidar com limites, cumprir combinados e cuidar de frustrações e perdas.

É importante destacar que existem pessoas que têm uma relação de vício em jogos, que podemos chamar de ludomania ou jogo patológico, então é fundamental dizer que a proposta de jogo coletivo pode não se aplicar às situações que envolvem esses casos.

Agora que falamos sobre as possibilidades de autocuidado pela via dos jogos, vamos pensar um pouco sobre a importância do brincar, não só na vida de crianças (como usualmente se diz), mas também na vida adulta. E para isso, vou pedir ajuda a uma pessoa que eu considero um grande brincante das palavras: Manoel de Barros.

Esse moço faleceu em 2014, mas deixou para nós a possibilidade de exercitarmos a capacidade brincante com as palavras. Manoel de Barros nos mostra que a brincadeira pode ser feita com tudo que existe e inexiste no mundo.

Em seus textos, ora ele apresenta uma criança escovando palavras, ora um pequeno dá vida a um pente desdentado. Tem de tudo nas brincadeiras de Manoel.

Esse escritor foi um adulto que ousou seguir brincando mesmo depois de grande e o resultado é poesia e muita boniteza. Papel e lápis eram seus brinquedos e a brincadeira se fazia escorregando as letras na folha.

Brincar é isso: é essa coisa que, não necessariamente tem regras, mas que nos faz tão bem, que entretém nossos corpos a ponto de passarmos uma tarde inteirinha cavoucando um buraco só para encher de água e ver a terra chupar tudo em alguns segundos no fim do dia. Batucar panelas e fingir ser da bandinha do Chaves. Cantar fazendo do frasco vazio de xampu um microfone.

Brincar é a possibilidade de inventar um mundo melhor, nem que seja por um instante. Fazer-de-conta é dar respiros para nossos pensamentos e acalmar angustias.

Experimente aí na sua casa propor uma brincadeira. Sugira qualquer atividade que seja brincante, ou brinque sozinha (por que não?). Molhe a sola dos pés e faça rastros de água no quintal. Sopre bolinhas de sabão e as estoure depois. Você pode perguntar: Pra quê? E eu respondo: Para nada, só de brincadeira!

Você não precisa ser criança para brincar, mas se morar com alguma, peça ajuda para reaprender a usar a imaginação. Crianças têm essa sorte: ainda não foram cimentadas como nós, pessoas adultas. Por isso, muitas vezes, elas veem soluções subjetivas para questões que nós pensamos ser puramente concretas.

Uma vez um garoto me disse que achava que as crianças eram feitas de algodão e adultos eram feitos de concreto. Talvez seja isso que eu esteja querendo dizer: a brincadeira nos convida a sair do campo do concreto, nos auxilia a abstrair, mas numa sociedade adultocêntrica como a nossa, acabamos não valorizando as produções infantis e perdemos grandes estratégias de autocuidado.

Só a brincadeira é forte o bastante para suspender a realidade e nos permitir criar novas saídas para caminhos que pareciam estar perdidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL