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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sexualidade adolescente: reflexões sobre erotização e acesso à pornografia

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

03/09/2021 04h00

Quando eu era adolescente, uma amiga encontrou uma fita VHS em cima do guarda-roupa dos pais. A capa era preta e não tinha nada escrito. Para nós, pré-adolescentes, esse era um supermistério que precisava ser desvendado. Chegando na escola, ela contou sobre a fita para o nosso grupinho de amigas, mas já levantou a hipótese: "Eu acho que é pornô".

A gente ficou muito empolgada e decidiu que precisava assistir. Todos os adultos da minha casa saíam cedo para trabalhar e meu tio, que morava no mesmo quintal que a gente, tinha um aparelho de VHS. Falei para as meninas que poderíamos assistir a esse filme na casa do meu tio, já que não teria ninguém e eu sabia onde ficava a chave.

Eu lembro que não consegui dormir, de tanta empolgação. Acordei cedinho, levei minhas irmãs para a escola, comprei pão e preparei café para esperar as meninas. Fui de casa em casa chamá-las para nosso compromisso. Só que todas elas desistiram. Então eu convenci a menina a me emprestar a fita, com o compromisso de contar sobre o conteúdo e devolver antes do horário da escola. Eu assisti e reassisti umas duas vezes.

Essa não foi a primeira vez que eu tive acesso à pornografia. Eu, quando criança, lá pelos 9 anos, achei uma espécie de gibi-pornô que meu tio deixava numa mala, no alto do guarda-roupa. Também já assisti a trechos de um filme pornô na casa de uma coleguinha, quando tínhamos por volta dos 11 anos de idade.

Aos 15, eu já tinha acessado, pelo menos, três materiais pornográficos. Minto! Foram quatro! Já estava quase me esquecendo de uma revista voltada para pessoas adultas que apresentava fotos de um jogador de futebol famoso pelado e que uma colega levou para a escola. Vimos escondidas no fundo da sala, no intervalo de aula. Então eram quatro materiais: um "gibi", uma revista e dois filmes VHS.

Essas foram minhas primeiras referências sobre o que eu acreditava ser um ato sexual. E quais foram os efeitos disso?

Eu aprendi um roteiro sexual com esses materiais e isso, em médio prazo, me custou um preço bem alto. Por achar que fazer sexo se parecia com tudo que eu vi na pornografia dos 9 aos 16, eu comecei a executar uma performance de sedução e ato sexual que só me colocava em situações de risco.

Eu achava que fazer sexo era apanhar no rosto e no bumbum, achava que era ser xingada e cuspida. Pensava que era ser submissa. E, principalmente, tinha que gemer alto —bem alto! Além de fazer tudo isso com um sorrisinho no rosto.

Alguém pode dizer: "Não seja extremista, tem gente que gosta de uns tapas, xingamentos e de gemer alto". Tá! Eu sei. Mas esse texto aqui não é sobre a mulher que sou hoje —ou que você é —, ele é sobre as primeiras vivências sexuais de uma menina de 15 anos que tinha como única referência a pornografia de base violenta, racista e cis-heterossexual.

Durante a adolescência e começo da juventude, eu não me lembro de nenhuma transa carinhosa. Tudo era sempre muito agressivo e se eu não gostasse do que estava acontecendo, ou se doesse fisicamente, por exemplo, eu não reclamava, não pedia para parar, eu fingia que aguentava e depois, literalmente, cuidava das feridas.

Até mesmo a masturbação era violenta. Eu me violentava e autorizava que promovessem violências sobre meu corpo. Aos pouquinhos, sexo e violência se fundiam na minha cabeça e eu já não conseguia diferenciar um do outro.

Sabe com que idade eu fui aprender que não precisava apanhar sempre, ser xingada e cuspida sempre? Aos 28 anos, quando entrei na pós-graduação de gênero e sexualidade na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e conheci um grupo que discutia sexualidade de mulheres negras. Foi com essas mulheres que aprendi sobre erotização da infância negra, sobre a invenção da mulata, sobre o termo racista "da cor do pecado", sobre a mentira de que as pretas são mais fogosas e gostam "de uma pegada mais forte" e sobre o quanto o prazer é roubado de nós e transformando em violência sexual.

Tenho tomado meu corpo de volta para mim, exercitando ser a dona do meu próprio prazer e pensando no quanto é difícil mudar uma lógica de pensamento e vivência sexual de base racista, cis-heteronormativa e patriarcal. Tenho buscado contribuir para que outras pessoas também reflitam sobre sexualidade saudável e antirracista.

Muitas vezes, a gente aprende sobre sexo na clandestinidade, no pornô "escondido" no guarda-roupas ou gavetas dos pais, nas histórias fantasiosas inventadas pelos colegas na adolescência e tudo isso é porque a gente não fala abertamente sobre tesão, desejo e respeito. Daí, sem diálogo franco e real, sexo e violência se fundem e se tornam um negócio só.

E a gente segue assim: gemendo sem saber por que, apanhando sem saber se gosta, levando cuspida sem saber se quer. Só seguindo um roteiro que não cabe em nossos corpos e amarra nosso prazer.

Durante a escrita desse texto eu parei algumas vezes e me perguntei: "Você vai publicar isso? O que as pessoas vão pensar?". Bom, as pessoas precisam ser responsáveis pelo que pensam, não posso ser cuidadora das ideias alheias. Então, ao ler esse e outros textos, vigie sua cabeça e pense na sua responsabilidade pelo que pensa.

Esse texto é um início de conversa, eu falarei mais vezes sobre os efeitos da pornografia no desenvolvimento sexual de adolescentes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL