PUBLICIDADE

Topo

Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para o olho da rua: adultos podem expulsar crianças e adolescentes de casa?

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

27/08/2021 04h00

Já começo esse texto com uma afirmação: se você é responsável por crianças ou adolescentes, não pode expulsá-los de suas casas!

E você também não pode dizer frases como:

"Se for LGBT, eu expulso, sim!"
"Se engravidar, eu expulso, sim!"
"Se usar drogas, eu expulso, sim!"

Crianças e adolescentes estão numa fase de desenvolvimento peculiar e por mais que para pessoas adultas seja difícil e dolorido tecer processos de diálogo com essas faixas etárias, não se deve ameaçar crianças e adolescentes de expulsão de casa. Se você é legalmente responsável por alguém com menos de 18 anos, você tem que garantir que essa pessoa será protegida e fortalecida até atingir, minimamente, a idade adulta.

Caso você não deseje cuidar da criança ou adolescente pelo qual é responsável, busque ter um olhar crítico sobre si e se proponha a entender o motivo que te leva a rejeitá-la e colocar a segurança de suas ideias acima da segurança de uma pessoa que está em uma fase tão delicada de desenvolvimento.

É muito possível que sua visão de mundo e a forma como está tentando solucionar um conflito esteja baseada em preconceitos e isso gere resistência para o diálogo. Além disso, pessoas adultas, em geral, têm mais poder social que crianças e adolescentes e ao ameaçar expulsar uma criança de casa está exercendo um abuso do poder. Isso é extremamente violento.

Independentemente do conflito que esteja acontecendo, não se pode simplesmente abrir a porta de casa e dizer para uma criança ou adolescente "saia daqui, vá embora". Moradia é um elemento fundamental no sentimento de segurança, então cada vez que uma pessoa adulta ameaça uma criança ou adolescente de expulsão, está contribuindo para que essa pessoa se torne insegura.

Se não é por amor àquela pessoa, que seja pela sua responsabilidade legal com ela. Você precisa cuidar dela e ela precisa de seu cuidado! Deixar uma criança ou adolescente sem proteção só porque não se comportou (ou não é) como você idealizou é uma violência gravíssima, gera danos intensos à saúde mental e não podemos naturalizar isso.

Você também não pode ameaçar retirar o direito à moradia de crianças ou adolescentes caso não façam o que você deseja. Muitas pessoas adultas trazem relatos fortíssimos de serem ignoradas pelos pais durante a adolescência, sob a justificativa de que a família não aceitava sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Recebo relatos de violência psicológica praticadas contra adolescentes que, por terem engravidado antes dos 18 anos, são privadas de repetir a refeição ou até mesmo tomar banho todos os dias.

Você não tem obrigação de amar as crianças e adolescentes pelos quais é responsável legalmente, mas tem o dever de proteger e garantir o acesso à alimentação, educação, saúde e outros direitos.

*É importante frisar que esse texto não tem pretensão de isentar o Estado de sua responsabilidade na garantia de direitos de crianças e adolescentes. Cabe ao Estado promover a implementação de serviços de qualidade que promovam direitos, e criar mecanismos para que responsáveis por crianças e adolescentes tenham acesso a informações sobre seu papel na garantia de direitos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL