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Elânia Francisca

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cegonha ou Correios? O problema de mentir para a criança sobre sexualidade

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Imagem: jgroup/ iStock
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

06/08/2021 04h00

"A senhora sabia que Deus envia os bebês pelos Correios e eles chegam em até três dias?". Essa frase foi dita por uma criança de 6 anos durante uma atividade sobre corpo e autocuidado.

Segundo ela, sua família contou que os pais decidem ter um filho durante uma conversa que fazem no quarto. A partir daí, eles rezam pedindo um bebê. Deus escuta a prece e então envia a criança pelos Correios.

Essa história, embora muitas pessoas com quem conversei tenham achado bonitinha e criativa, possui vários fatores problemáticos, e aqui vou me ater ao ponto que acredito ser um dos mais danosos: a mentira sobre sexualidade como fator de fragilização do vínculo de confiança da criança com seus adultos de referência.

As mentiras que os adultos contam às crianças e adolescentes sobre sexualidade podem até parecer uma espécie de proteção, já que, muitas vezes, pais e mães pensam que aquela pessoa é muito nova para conversar e entender certos temas. Com base nessa ideia, algumas pessoas adultas criam uma história que não têm nenhuma base científica, pelo contrário, é parte de uma ficção que esconde a verdade sobre concepção —e colocam a criança numa posição alienada.

Nesse momento, algumas pessoas podem pensar que estou exagerando, afinal a história acima pode ter sido uma forma lúdica que os pais encontraram para dialogar sobre gestação e nascimento. Mas não é bem assim! Ludicidade e mentira não são palavras sinônimas.

Há uma diferença entre utilizar ferramentas lúdicas para contar um fato e esconder a verdade por trás de fantasias que nada se aproximam da realidade

Deus não é uma figura presente em todas as religiosidades, então se é ele quem envia os bebês, como ficam os ateus e as pessoas que vivem religiosidade em que essa figura não existe? De onde nascem os filhos de quem não acredita em Deus? Se os bebês chegam via Correios, por que é preciso ir ao hospital? Por que a barriga cresce?

Quando contamos uma mentira às crianças sobre temas relacionados à sexualidade, estamos negando a possibilidade de acesso à informação e isso viola o direito reprodutivo (que, no caso das crianças, é o direito de saber sobre temas relacionados à reprodução e um deles é saber sobre concepção, gestação e parto).

Quando uma criança chega à escola, inevitavelmente, ela descobrirá que "não nasceu" da cegonha, do repolho ou dos Correios. Então ela constatará que seus pais mentiram e, a partir dessa constatação, poderá pensar que ou seus pais não sabem o suficiente sobre sexualidade, ou são pessoas mentirosas. Nas duas opções, ela vai acabar concluindo que foi enganada e que, se ela quer saber mais sobre aquele assunto, não será no âmbito familiar que encontrará informações confiáveis.

Use ferramentas lúdicas para dialogar sobre sexualidade, mas não minta para as crianças, não invente histórias falsas, baseadas em inseguranças que são suas, no diálogo sobre sexualidade. Mentir (ou omitir) só fará com que o vínculo de confiança se fragilize entre você e a criança.

Caso a pergunta pegue você de surpresa —ou você não saiba mesmo responder—, peça um tempo à criança, diga que precisa pensar direitinho na resposta ou, se for o caso, admita que também não sabe e sugira que pesquisem sobre o assunto coletivamente. Isso mostrará à criança, na prática, que ninguém precisa saber de tudo e está tudo bem, afinal, a pesquisa é parte importante na construção de conhecimento.

Existem livros e vídeos que podem auxiliar pessoas adultas a conversarem francamente com crianças sobre sexualidade e nascimento. Eu indico os livros Mamãe botou um ovo e De onde viemos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL