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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gordofobia e pressão estética na infância: há impactos na autoestima?

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Imagem: iStock
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

23/07/2021 04h00

Nós vivemos numa sociedade que impõe, de forma muito violenta, um padrão de beleza que cultua a magreza, a branquitude e a juventude dos corpos, principalmente a pessoas do gênero feminino. Comerciais de cosméticos, procedimentos estéticos e filtros de rede social reforçam e ensinam que só existe um tipo de beleza aceitável e tudo que não segue esse padrão deve ser desvalorizado, diminuído, indesejado, até que se adeque ao que a sociedade entende como belo.

Pressão estética e gordofobia são a mesma coisa? Não.

A pressão estética está relacionada à pressão social para que as pessoas se adequem, a todo custo, aos padrões de beleza. Já a gordofobia é uma opressão estrutural que se baseia na aversão ao corpo gordo, que trata a gordura como sinônimo de adoecimento e desleixo, e a magreza como saúde e "boa" forma. Tanto a pressão estética quanto a gordofobia afetam as pessoas de formas diferentes, dependendo de sua identidade de gênero, deficiência, raça e etnia, classe social etc.

Engana-se quem acredita que a pressão estética e a gordofobia começam a atuar sobre as pessoas na adolescência ou na idade adulta. Crianças também são vítimas dessas formas de violência que, muitas vezes, não inicia na escola, mas no próprio ambiente familiar.

- Você vai virar uma bola comendo desse jeito.

- Vá arrumar esse cabelo feio, tá todo assanhado.

- Por que você não se arruma como a sua prima?

- Vá passar um hidratante nessa canela cinza, menino.

Para o adulto, pode parecer uma brincadeira ou uma estratégia de alerta para a importância do autocuidado, mas, para a criança, essas e outras frases têm efeito de fragilização da autoestima e podem ser vistas uma crítica dura à sua estética.

O ambiente familiar é o primeiro local de socialização das crianças, é ali que vão acontecendo às primeiras vivências de interação. A criança se reconhece como parte daquele grupo e nele vai descobrindo qual é o seu papel. Então se ela se sente extremamente desvalorizada e desrespeitada pelas pessoas que a amam, ela pode levar para a vida toda a ideia de que ela é inadequada ou feia, já que seu primeiro grupo social não expressava que ela era bela e tinha seu valor.

Em 2015, um artigo intitulado "Insatisfação da imagem corporal e estado nutricional em crianças de 7 a 11 anos: estudo transversal" publicou os resultados de uma pesquisa realizada na cidade de Porto Alegre, no ano de 2015, e que revelou que mais de 75% das crianças entrevistadas apresentaram insatisfação com sua própria imagem corporal, desejando ter uma silhueta diferente da sua.

Podemos dizer que a gordofobia e a pressão estética estão presentes no ambiente escolar —e estão mesmo —, mas também são fortemente difundidas em nossas próprias casas quando dizemos à criança que ela "vai virar uma bola" se continuar comendo ou quando questionamos o motivo de ela não se arrumar como a prima.

Precisamos fortalecer a importância do autocuidado junto às crianças, por meio de falas e ações que questionem padrões estéticos e valorizem sua existência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL