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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os desejos de dona Lúcia: uma história sobre a descoberta do prazer

Getty Images
Imagem: Getty Images
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

09/07/2021 04h00

Após a descoberta de uma traição por parte do marido, dona Lúcia* percebeu que seu casamento nunca mais seria o mesmo. Ainda que o perdão fosse verdadeiro, a confiança abalada fez com que a relação esfriasse e, após 30 anos de relacionamento, o casal se divorciou.
Com os filhos criados e, agora, divorciada, ela sentiu que era o momento de cuidar de si e passou a frequentar periodicamente um salão de tratamento estético perto de sua casa para fazer drenagem linfática.

No início, as sessões tinham como foco o cuidado para a não retenção de líquidos no corpo, mas depois dona Lúcia sentia que o toque das mãos da profissional lhe geravam um prazer que ela jamais tinha experimentado.

Ao comentar o caso com sua amiga, foi questionada sobre a última vez em que se masturbou. Sem jeito, revelou que nunca havia feito isso antes e nem sabia por onde começar. As amigas decidiram ir juntas a um sex shop e compraram um pênis de borracha para dona Lúcia.

Em casa, ela tentou usar o objeto de todas as formas, mas não sentia prazer algum. Preocupada, achando que estava com algum problema, entrou em contato com uma psicóloga especializada nas questões de sexualidade adulta e agendou um atendimento.

Durante a primeira conversa, dona Lúcia disse que havia tentado se masturbar, mas não conseguiu e estava aflita, pois sentia que algo de errado poderia estar acontecendo. Mencionou que durante as sessões de drenagem linfática, sentia um prazer tão intenso que, por vezes, se envergonhava com medo de a profissional perceber sua excitação.

Na sessão com a psicóloga, dona Lúcia foi apresentada a uma imagem no computador e pôde descobrir, aos 60 anos, que aquilo que ela sempre chamou de vagina, na verdade se chama vulva, que a vagina era uma parte que ficava por dentro e que a urina não sai pelo mesmo orifício da menstruação.

Embora aquele momento tenha lhe aberto muitas reflexões sobre a própria genitália, a melhor descoberta feita por dona Lúcia foi a percepção de que seu corpo todo era uma zona de prazer e que não havia nada de errado com ela, pelo contrário, seu corpo todo estava sinalizando, pela primeira vez em muitos anos, que toques em sua pele a excitavam e que não é só pela penetração que se pode obter prazer.

Dona Lúcia descobriu o próprio clitóris somente aos 60 anos porque foi incentivada a acreditar que olhar para si mesma "de forma tão íntima" era sujo e proibido, mas foi no processo de aproximação consigo mesma que compreendeu que sua pele toda é potência orgástica e que os pequenos vibradores, conhecidos como bullets, são mais confortáveis para ela. Compreendeu que objetos em formato peniano não lhe agradam e se tranquilizou ao entender que o prazer não tem uma receita pronta e que é um caminho de descoberta.

*Essa história é real e aconteceu no ano de 2019. Para garantir o sigilo da identidade, o nome Lúcia é fictício.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL