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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Que corpo é esse? A educação em sexualidade como potência de autocuidado

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Imagem: iStock
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

25/06/2021 04h00

Vamos começar nossa conversa com três episódios sobre educação em sexualidade.

Situação 1 - Roda de conversa com jovens do gênero masculino. Um rapaz informa que o pai lhe ensinou que homens heterossexuais não devem lavar o ânus e as nádegas, pois, segundo ele, "quem muito limpa quer receber visita".

Situação 2 - Atividade com um grupo de mulheres adultas. Uma delas informa que está gostando bastante dos encontros sobre sexualidade, pois aprende muitas palavras novas. Ao ser questionada sobre qual palavra nova aprendeu, ela responde: "Vulva! Palavra bonita e eu não sabia que existia, muito menos que eu tinha a tal da vulva também".

Situação 3 - Um jornal muito famoso divulga imagens da obra de uma artista, dizendo se tratar da escultura de uma vagina gigante. Na imagem é possível ver que a escultura, na verdade, é de uma vulva (e não uma vagina).

As situações acima foram vivenciadas por diferentes públicos, pertencentes a classes sociais distintas, e as escolhi para ilustrar um dos diversos impactos gerados pela ausência de ações no campo da educação em sexualidade no Brasil: a ausência de informações adequadas sobre corporeidade e cuidado à saúde sexual e reprodutiva.

Dar nome às partes de nosso corpo e higienizá-las é algo que aprendemos desde criança, porém não são todas as partes que temos permissão de nomear, questionar e, consequentemente, cuidar e proteger.

Aprendemos na infância e ensinamos às crianças de hoje quais são as partes do corpo: cabeça, ombro, joelho e pé. Daí, o resto a gente chama de "parte íntima", mas as crianças raramente aprendem a nomear cada pedacinho das partes íntimas porque, em alguns casos, nem nós adultos sabemos esses nomes.

Ensinamos: "Essa é sua vagina". E apontamos para a vulva.

"Esse é seu pênis e essa é a cabeça do seu pênis", em vez de chamar de glande.

Aprender sobre o próprio corpo é fundamental no processo de construção do amor por si e de autoproteção. E não estou falando somente de crianças e adolescentes. Muitas pessoas adultas vivem o desconhecimento de si ou descuido com a própria higiene devido à ausência de espaços para diálogos abertos e sérios sobre sexualidade e corpo desde a infância.

Se nós fossemos pessoas que tratam a sexualidade de forma rasa —como uma pocinha d'água —, diríamos que se trata apenas da ignorância do povo, preguiça de olhar para si. Contudo, você e eu sabemos que sexualidade é assunto profundo —igualzinho um oceano —, então é preciso preparar nosso tanque de oxigênio com referências sérias sobre o tema e mergulhar nessa reflexão para investigar os impactos da ausência da educação em sexualidade no autocuidado e autoproteção.

A educação em sexualidade fez (ou faz) parte da sua trajetória de vida? Quais impactos a presença (ou ausência) de informações sobre corporeidade gerou em sua capacidade de cuidar de si e viver plenamente sua sexualidade?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL