PUBLICIDADE

Topo

Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ageísmo e adultocentrismo: quando a idade é um fator para a discriminação

iStock
Imagem: iStock
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

11/06/2021 04h00

O etarismo —ou idadismo — pode ser descrito como o preconceito relacionado a uma faixa etária específica, mas não se trata somente de uma discriminação nas relações pessoais. O etarismo também está relacionado ao modo como uma sociedade funciona e como as leis e as relações macro são criadas ou colocadas em prática.

Podemos pensar que o etarismo trata-se de um preconceito somente contra a população idosa, mas se ele está relacionado a uma questão etária é possível pensar uma divisão em duas formas de etarismo: o ageísmo e o adultocentrismo. O primeiro seria a violência ou discriminação sobre a fase da vida idosa; já o adultocentrismo trata-se da discriminação sobre a fase infantojuvenil da vida. Tanto um quanto outro expressam a ideia de que somente a idade adulta deve ser celebrada, validada e valorizada.

Perceba que não falei que o preconceito é sobre crianças, adolescentes e idosos, mas sobre a faixa etária. É nítido que quem está em uma dessas fases da vida sentirá, literalmente, na pele os impactos do ageísmo e do adultocentrismo, mas as pessoas adultas poderão experimentar ou expressar o medo de envelhecer ou o alívio por não ser mais criança.

Culturalmente, desenvolvemos uma ideia de que a discriminação só se expressa por meio de uma violência explícita, como bater, xingar ou até mesmo matar. Essa crença faz com que tenhamos dificuldade para identificar ou admitir as violências que praticamos coletivamente e passamos a tratar como exagero tudo aquilo que não gera um dano físico aparente.

Há alguns momentos em que temos falas e comportamentos ageístas, como quando não dizemos nossa idade por medo de sermos chamados de velhos; ou quando elogiamos alguém dizendo: "Como você é jovem, nem parece ter essa idade". Tratar idosos com fala infantilizada também é um comportamento ageísta.

Já o adultocentrismo é expresso cotidianamente quando usamos a palavra infantil para ofender alguém: "Deixe de ser infantil" ou o termo adolescente como sinônimo de imprudência ou ingenuidade: "Você precisa ser mais responsável, parece até um adolescente".

Falar sobre tudo isso não é apontar culpados, mas é um exercício de transformação cultural por meio de nossa linguagem e atitudes.
Cada faixa etária tem suas potências e fragilidades, mas numa estrutura ageísta e adultocêntrica corremos o risco de invisibilizar crianças, adolescentes e idosos e tratá-los como incapazes.

Por fim, é importante lembrar que todas as fases da vida precisam ter garantia de direitos e ser protegidas de violências considerando suas peculiares, mas vale dizer que a proteção é algo que praticamos coletivamente e a pessoa protegida é parte ativa nesse processo. Então, ao pensarmos no cuidado dedicado a alguém, estejamos abertos a escutar, dialogar e refletir junto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL