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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você também sofre com o adultocentrismo: quando o eu adulto pede colo

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

04/06/2021 04h00

Sou psicóloga, educadora de gênero e sexualidade numa proposta educativa chamada Sexualidade Aflorada. Durante muito tempo, cultivei o desejo de trabalhar diretamente com crianças e adolescentes, afinal, meu foco sempre foi pensar sobre o desenvolvimento infantojuvenil.

Acreditava que pessoas adultas tinham a função de levar as crianças para as atividades que eu conduzia e, em alguns momentos, participar da proposta educativa, mas sempre com o foco na criança do aqui e agora.

Meu olhar se ampliou quando comecei a atender pessoas adultas em psicoterapia e me dedicar à investigação de suas dores por meio da escuta das histórias trazidas.

Inicialmente essas pessoas relatavam angústias, medos e fragilidades do presente. Na maioria das vezes, eram conflitos no trabalho, dificuldades com a vida acadêmica ou inseguranças no relacionamento amoroso.

Aos poucos, de sessão em sessão, eram trazidas recordações de infâncias com episódios de negligência afetiva, culpabilização por conflitos ou invisibilização das potências, seja no contexto familiar, escolar, comunitário ou na convivência com outras crianças.

Se você é profissional de psicologia ou curiosa sobre o tema, isso que trago te parecerá óbvio, afinal é algo do cotidiano clínico, mas se você não está familiarizado com esse assunto, talvez te pareça estranho pensar que uma memória do passado ainda ecoe nas atitudes de alguém que já cresceu.

Essa ideia de que o passado já passou faz com que muita gente menospreze os ecos de dor da infância e chame isso de fraqueza ou aconselhe dizendo: "Supera! Isso aconteceu há muitos anos". Contudo é importante saber que o modo como você sente o mundo hoje está intimamente ligado às muitas memórias de sua infância.

Isso não quer dizer que quem sofreu violência no passado, necessariamente violentará pessoas no futuro ou será submissa no presente, mas é inegável que sua história diz muito sobre você hoje.

Recordar o passado, num processo de psicoterapia ou análise, é construir a possibilidades de refletir e ressignificar (dar outro significado) a memória que dói e fragiliza.

Em todos os atendimentos em psicoterapia que realizei até hoje, há uma opressão que sempre aparece nas histórias: o adultocentrismo. Já falei sobre isso em outro texto.

A ideia de que o adulto é quem manda e a criança não tem querer é trazida de forma pulsante nos relatos e a continuidade desse ciclo de silenciamento das infâncias é perceptível também.

As frases ouvidas na infância e mais recordadas nos diferentes processos de psicoterapia são:

  • Tirou uma nota boa e quer elogio por quê? Sua única obrigação é estudar, então tem que fazer bem feito mesmo.
  • Cala a boca que você está errada(o).
  • Vai fazer sim, criança não tem querer.
  • Quando você for dona(o) da sua casa, aí você dá sua opinião. Obedeça!
  • Tá sofrendo de quê? Que sofrimento uma criança pode ter?
  • Tá apanhando porque fez coisa errada.

Algumas frases, muitas vezes, são relatadas em tom de brincadeira, mas para ilustrar um sofrimento recente. Seja por ter sido vítima de uma violência doméstica e acreditar que "apanhou porque fez coisa errada" ou por assédio moral no trabalho, por entender que deve calar a boca diante de uma figura de poder.

Freud tem uma reflexão sobre essas brincadeiras ditas nos processos terapêuticos que é assim: "Numa brincadeira pode-se até dizer a verdade".

Gracejar sobre algo pode ser a forma que encontramos de lidar com essas dores que ainda pulsam.
Esse texto não foi escrito para dizer que as pessoas que te cuidaram na infância foram péssimas, mas para que reflitamos sobre o adultocentrismo como algo que atravessou a sua infância, a de seus pais, avós, bisavós...

Não podemos mudar o que já nos aconteceu, mas é possível ressignificar nossas histórias e construir novos olhares e fazeres com as crianças hoje.

Finalizo citando a terapeuta humanista Yvonne Laborda:

"Quanto pior tratamos uma criança, pior ela pensa que é. Ela não consegue parar de amar seus pais, ela deixa de amar a si mesma."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL