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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Oceano ou poça d’água: por que é tão difícil falar sobre sexualidade?

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Imagem: Getty Images
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

14/05/2021 04h00

No texto anterior, já refletimos sobre a importância de defendermos os direitos sexuais e reprodutivos enquanto direitos humanos de crianças e adolescentes. É sempre bom lembrar que direitos sexuais nada têm a ver com o incentivo ao sexo, pelo contrário, ele incentiva o acesso à informação sobre corpo, respeito, diversidade e autoproteção. E a educação sexual é fundamental nesse processo.

Toda criança e todo adolescente merece crescer e se desenvolver numa sociedade que respeita seus corpos e não os viola. Porém ainda são expressivos os números de denúncias de casos que envolvem a violação da intimidade e sexualidade infantojuvenil.
Ainda somos a sociedade que acredita que uma menina de 12 anos tem o poder de "seduzir" uma pessoa adulta. Ainda culpabilizamos vítimas pelas violências que sofrem e isso é gravíssimo!

Um dos fatores que contribuem para que sigamos tendo uma ideia distorcida do que é sexualidade, intimidade e respeito aos corpos é a ausência de educação sexual em nossa própria vivência.

Você, pessoa adulta, aprendeu sobre afetividade na escola? Teve aula de educação emocional? Você conhece seu próprio corpo? Sabe a diferença entre vulva e vagina? Sabe qual especialidade médica cuida da saúde de pessoas que têm pênis? Você gosta do seu corpo? Você consegue nomear as emoções que sente? Sabe lidar com a raiva sem gritar ou agredir alguém? Sabe a diferença entre abuso e exploração sexual? Sabe como denunciar algum tipo de violência sexual?

Essas são perguntas que toda a população brasileira adulta deveria ter uma ideia de como responder, mas muitas pessoas ainda não sabem. E isso nada tem a ver com incapacidade de conhecer a si mesma. Tudo isso tem a ver com os efeitos da ausência de informação sobre sexualidade em nosso desenvolvimento.

Somos a população que defende ser papel exclusivo da família dialogar sobre sexualidade com crianças e adolescentes, mas ao mesmo tempo nos sentimos desconfortáveis e sem informação suficiente para dialogar com os filhos.

Como dar o que não recebemos?

Precisamos nos colocar disponíveis para aprender sobre sexualidade. Nós podemos ser aprendizes agora, mesmo depois de adulto.
É como se conhecêssemos as letras do alfabeto, mas não soubéssemos ler. Então precisaremos aprender a juntar as letras, formas palavras, frases e tecer textos. Dialogar sobre sexualidade é abrir-se para uma nova leitura de si mesmo e, automaticamente, uma nova leitura sobre convivência e respeito.

Sexualidade é um tema profundo e é exatamente por isso que não podemos tratá-lo como se fosse uma poça d'água. Sexualidade é um oceano.

Poças d'água são rasas e molham apenas as solas de nossos sapatos, já os oceanos são profundos, complexos e para conhecê-los precisamos mergulhar o corpo todo.

É difícil falar sobre sexualidade em casa, porque esse foi um exercício que nossos corpos pouco fizeram na infância e adolescência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL