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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A escrita pode ser um movimento de cura: fique são

RF._.studio/Pexels
Imagem: RF._.studio/Pexels
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

26/02/2021 04h00

Eu sempre gostei das palavras. Quando pequena, ficava maravilhada com a imensidão de coisas que eu poderia fazer usando apenas letras. Eu podia ser o que quisesse. Escrever contos era (e ainda é) minha forma preferida de viajar. Descobri desde cedo que minhas escritas podiam me ajudar a superar dificuldades internas.

Eu era uma criança muito mentirosa e, por vezes, era castigada por isso. Só para você ter uma ideia, eu não mentia para escapar de um castigo ou algo do tipo, eu mentia sobre coisas absurdas.

Certa vez eu inventei que era amiga do Chapolin Colorado e ele me dava pílulas de encolhimento para que eu pudesse entrar em qualquer lugar, passando debaixo da porta. Eram mentiras descabidas, muito absurdas mesmo. E eu tinha entre oito ou nove anos.

Meus familiares já não sabiam como me castigar pelas coisas que eu falava, então passaram a não acreditar em nada do que eu dissesse. Foi um período muito difícil, porque eu vivia com um medo constante de que, se algo de ruim me acontecesse, ninguém iria acreditar em mim e me proteger.

Até que um dia, minha professora da terceira série do ensino fundamental, a Soraia, me ajudou a ampliar a perspectiva sobre as mentiras que eu contava. Ela disse: "Você não é mentirosa, você é criativa e tem muita imaginação! Só precisa aprender a mentir sem enganar as pessoas". Como eu faria isso?

Foi então que ela me indicou uma forma saudável de canalizar as mentiras que brotavam na minha cabeça. "Você pode escrever essas mentiras em forma de contos! Daí você diz que é uma mentira ou ficção."

Aquilo para mim foi mágico, talvez a professora Soraia não saiba, mas seu conselho me ajudou e ao mesmo tempo me protegeu de muitas dores. Eu nunca tinha recebido um olhar afetuoso com relação às mentiras que eu contava. Eu era muito punida por inventar histórias, mas nunca pensei que essas invenções podiam ser positivas, se fossem bem utilizadas.

Eu comecei a escrever meus contos e, aos pouquinhos, fui me aperfeiçoando na escrita, melhorando a gramática e ampliando o repertório, mas eram só histórias que nunca aconteceram de verdade (só dentro da minha cabeça).

Na juventude, eu passei por situações de muita violência num relacionamento e num local que eu trabalhava. Daí eu criei um blog que só eu tinha acesso. Parei de escrever textos de ficção e comecei a relatar (para mim mesma) as coisas que me aconteciam e como eu me sentia com relação ao que estava vivendo. Como eu estava "viciada" numa narrativa ficcional, meus textos eram escritos como se eu não fosse eu. Existia uma moça (que não era eu) que vivia uma realidade (que não era a minha).

Depois eu abri o blog para algumas pessoas de confiança acessarem e foi muito fortalecedor! Passei a me sentir à vontade falando sobre mim e entendi que contar minha própria história é um ato poderoso. É poderoso porque minha história pode se parecer com a história de alguém que se sente solitária em sua dor ou abandonada em sua potência. Quando falo de mim, estou falando de muitas pessoas por meio de minha vivência.

Conceição Evaristo revolucionou minha vida quando criou o termo escrevivência. Porque aí eu entendi que minha vida e de outras mulheres e meninas negras são valiosas e necessárias e podemos contar nossas histórias com potência!

A escrita me possibilitou ressignificações, acolhimento, viagens potentes e tem me feito trilhar um percurso de cura.

E você, já escreveu seu conto?

*"Fique são" é um termo que li num clipe de uma música linda chamada Beta, do poeta Rafa Carvalho, que você pode acessar clicando aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL