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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como acolher crianças vítimas de violências sexuais sem revitimizá-las?

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Imagem: iStock
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

12/02/2021 04h00

Vou começar esse texto explicando o que significa a palavra revitimizar. Basicamente é ter atitudes que fazem com que a vítima de alguma violência seja vitimizada novamente.

É importante dizer que nem sempre essa revitimização é intencional. Muitas vezes, a intenção da pessoa que revitimiza alguém é de acolher, porém esse acolhimento é permeado por uma atitude de julgamento, culpabilização da vítima ou moralismo.

Vamos trazer uma situação fictícia para ilustrar: uma jovem estava sendo perseguida na rua e correu para um comércio pedindo ajuda. O dono do local, vendo a situação, ofereceu a ela um copo d'água e disse: "Aqui é bem perigoso, moça. Você não pode ficar andando aqui depois que anoitece".

Nessa cena, o dono do comércio poderia ter oferecido o copo d'água e se preocupado em saber se a moça desejava telefonar para alguém, por exemplo. Sua atitude pode ter feito a moça se sentir culpada, não só pela perseguição, mas por ter interrompido o trabalho do dono do comércio.

Agora vamos trazer um caso mais complexo e, infelizmente, muito comum: uma criança acaba de contar ao pai que seu avô paterno mostra filmes eróticos para ele quando estão sozinhos. Ela acrescenta que o avô pediu segredo sobre essa situação. O pai pergunta duas vezes para a criança se ela tem certeza do que está dizendo. A criança confirma e ele a leva até a casa do avô e pede que ela relate novamente a história. Dessa vez, na frente do suposto agressor, a criança nega a história e o pai a repreende por estar mentindo sobre algo tão grave.

Aqui podemos perceber a revitimização em dois momentos. Inicialmente, a criança é interrogada duas vezes sobre algo que já deve ter sido difícil para ela dizer uma única vez. Em seguida, a suposta vítima é colocada diante do suposto agressor e, interrogada novamente, sentindo-se coagida, nega o ocorrido.

Algo muito importante que precisamos ter em mente é que nunca se deve colocar uma criança diante de um adulto que ela acaba de denunciar como possível agressor sexual. Em muitos casos, a criança muda a história e nega que tenha sido vítima de violência.
Isso significa que ela está mentindo? Não. Pode significar que ela está com medo.

Muitas pessoas que foram vítimas de violências sexuais na infância só tiveram coragem de contar o ocorrido depois de adultas ou quando o agressor mudou de bairro. Isso porque vivemos numa sociedade adultocêntrica, que prioriza acreditar na palavra do adulto em detrimento do que a criança relata.

É possível que essa criança tenha mentido? Sim! Mas não cabe a nós realizar investigações acerca disso. O que nos cabe é acionar o Conselho Tutelar ou ligar para o Disque 100 —de forma anônima ou não — e relatar a situação para que o cuidado com criança e a responsabilização da pessoa adulta aconteçam. Os órgãos responsáveis por investigar serão acionados e atuarão de forma protetiva, cuidadosa e responsável.

Quando pedimos para uma criança que ela conte várias vezes a mesma situação de violência, estamos pedindo que ela revisite essa cena tão difícil de esquecer, além disso é possível que ela sinta que você está pedindo isso porque não acredita no que ela contou, do jeitinho que o agressor pode ter dito que aconteceria: "Conta! Ninguém vai acreditar em você".

Então, o que devo fazer?

  • Se uma criança conta a você sobre uma situação de violência ou algo que a fragilizou, escute com atenção. Mostre para ela que você está ali para protegê-la;
  • Diga que você acredita nela, elogie a coragem e agradeça por ela confiar em você para relatar algo tão sério;
  • Pergunte como ela se sente agora que contou sobre a situação;
  • Isso é muito importante: sei que é difícil (muito difícil), mas não busque tirar satisfações com a pessoa que agrediu a criança. Não sairá nada de bom dessa atitude e, dependendo do desdobramento, a criança pode se sentir culpada porque sente que foi ela quem gerou uma briga, desavença ou algo mais grave;
  • Não se culpe! Muitas pessoas adultas se sentem culpadas quando tomam conhecimento de que a criança que estava sob sua responsabilidade foi vítima de violência. Pensam que poderiam ter matriculado em outra escola, se casado com outra pessoa etc. Dentro do que foi possível, você fez o que estava a seu alcance e agora também fará o melhor para proteger essa pessoa que está diante de você;
  • Por fim, não esqueça de notificar essa situação para o Disque 100.

Pensar na proteção de crianças é algo muito delicado, mas precisamos construir caminhos que as proteja de violências. E se alguma acontecer, que façamos acolhimento sem revitimizações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL