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Elânia Francisca

Quanto da sua infância ecoa agora que você cresceu?

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Imagem: iStock
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

22/01/2021 04h00

A primeira vez que apanhei de alguém do gênero masculino foi aos cinco anos de idade, na pré-escola. Eu apanhava quase todo dia dos meninos da escola. Puxões de cabelo, régua no pescoço e empurrões eram parte do meu cotidiano escolar.

Houve uma época que minha família recordava essas agressões de forma cômica: "A Elânia era tão mole quando criança que apanhava todo dia de um menino diferente".

Lembro também do início da adolescência, quando eu tinha meus 12 anos e estava na quinta série, voltando da aula de educação física. Um amigo do meu tio apontou para mim e disse que deveria ser proibido gente feia andar na rua. Eu me virei, caminhei em sua direção e o xinguei. Em resposta, ele encostou a testa na minha, colocou o dedo indicador na ponta do meu nariz e gritou "Limpa sua boca para falar de mim, neguinha do esgoto!". Naquele momento, meu rosto ficou dormente e eu não consegui reagir.

Levei um tempo para entender que esses episódios contribuíram para que aprendesse, desde pequena, a temer meninos e homens, e que, para romper com essa ideia, era preciso recordar minha história e dar outros significados a ela, para então construir meu fortalecimento enquanto mulher.

A grande questão é que aqueles meninos que me batiam também aprenderam algumas coisas na infância. Eles aprenderam a ser agressivos e a ter a violência como um meio de expressar o que sentiam. Por mais que a professora na escola diga: "Use as palavras, não a força física para se defender", há uma sociedade inteira mostrando para os meninos que a violência é a forma de comunicação que deve ser usada por um homem.

Certa vez, um adolescente me contou que foi ridicularizado pelo pai numa festa de família porque ele não sabia cumprimentar os tios "como um homem". Segundo o menino, seu pai disse que ele precisa apertar a mão "que nem macho".

O trecho de minha história e o episódio do adolescente mencionado infelizmente não são casos isolados, mas são reflexos de uma educação que vai dizendo às crianças, de forma lúdica, que elas precisam exercer certos papeis de acordo com o gênero escrito na certidão de nascimento.

Essa ludicidade nem sempre se apresenta de forma gentil. Castigos são aplicados quando não se cumpre o papel de gênero esperado. Xingamentos, chacotas, chutes e socos são ferramentas nesse processo. A famosa frase "Se apanhar na rua, quando chegar em casa, apanha de novo" só serve para ensinar às crianças que, se um dia elas forem alvo de violências, precisam reagir com violência ou serão violentadas novamente quando chegarem em casa.

São essas pequeninas frases, aparentemente inocentes, que vão nos ensinando a ter determinados comportamentos e desejos.
O que você viveu quando criança contribuiu para que você pense e aja da forma que age atualmente. Então é importante refletir: quanto da sua infância ecoa agora que você cresceu?