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Elânia Francisca

Adolescência negra e apaixonamento: quando a troca afetiva depende da cor

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

20/11/2020 04h00

Em 2018 eu defendi minha dissertação de mestrado, que buscou compreender um aspecto específico da sexualidade na adolescência: o apaixonamento.

Eu investiguei como meninas negras periféricas, com idade entre 13 e 17 anos, compreendiam o amor e de que forma vivenciavam suas primeiras experiências amorosas.

Entrevistei seis adolescentes negras moradoras do distrito do Grajaú, periferia sul da cidade de São Paulo e o processo de entrevistas, por si só, foi muito intenso.

Marcar o encontro com as famílias e com as meninas, pedir autorização para participar do estudo, escolher o local da entrevista e abordar temas relacionados ao amor me fez pensar. É urgente entendermos a educação em sexualidade como algo mais amplo que apenas as ações voltadas exclusivamente para a prevenção de IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e gravidez precoce. Eu já falei um pouco disso, neste texto.

Precisamos nos dedicar à construção de atividades junto a adolescentes que busquem abordar o tema das afetividades com a seriedade merecida. E falar de afetividades não é só perguntar se o menino ou menina já se apaixonou, mas dialogar sobre o que adolescentes pensam sobre ser amor, sobre o apaixonamento e como lidam com o fato de que nem sempre o amor será recíproco.

Junto a isso é fundamental estarmos sensíveis ao fato de que as vivências amorosas também estão atravessadas por uma estrutura racista e machista e que não ter reciprocidade afetiva na adolescência, por exemplo, em muitos momentos está condicionado ao quesito cor.

Durante a pesquisa que realizei, todas as meninas expressavam o quanto o racismo e o machismo influenciaram fortemente suas vivências de apaixonamento e reciprocidade afetiva. Uma menina, na época com 16 anos, informou que era apaixonada por um menino branco de sua escola, com idade aproximada da dela. Certa vez, num tom de brincadeira, a menina declarou seus sentimentos ao menino, que disse que embora houvesse reciprocidade no sentimento, ele não achava que um namoro pudesse acontecer, já que ele não gostaria de ter filhos pretos.

No caso dessa menina é impossível dizer apenas que "nem todo amor será reciproco, você precisa aceitar que nem todo mundo vai gostar de você", já que o menino dizia gostar dela também. Nesse caso, precisaremos acolher o sofrimento da adolescente não só como um coração partido, mas como vítima de racismo.

Adolescentes negras e negros muitas vezes chegam nessa fase da vida com a autoestima prejudicada por uma infância de violências racistas e podem não acreditar que são merecedoras e merecedores de amor, carinho ou de reciprocidade afetiva positiva.

Nesse dia da Consciência Negra desejo que sigamos em reflexão e ação na luta antirracista e que a gente construa ações de fortalecimento da potência afetiva para a população preta.

Finalizo recordando bell hooks*, que nos diz "O amor cura".

*O nome dessa autora é sempre escrito com letras minúsculas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.