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Elânia Francisca

"Tá cansada de quê?": pensando sobre meninas e o trabalho doméstico

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Imagem: iStock
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

30/10/2020 04h00

Uma vez por semana, um grupo formado por 12 meninas moradoras de periferias do extremo sul da cidade de São Paulo, com idade entre 13 e 17 anos, fazia uma reunião online para refletir sobre as questões de gênero, raça e cidadania. O encontro virtual era mediado por uma educadora e pesquisadora com formação em psicologia e educação.

As atividades tinham duração de duas horas semanais, além disso, a cada encontro, as meninas precisavam realizar uma tarefa que envolvia fotografar um canto da casa, entrevistar alguma familiar ou escrever um pequeno texto sobre o tema discutido.

No decorrer dos encontros, a educadora percebeu que as atividades propostas eram entregues sempre com atraso ou não eram feitas. Decidida a compreender o motivo de aquelas meninas não cumprirem o combinado, perguntou ao grupo se as atividades faziam sentido para elas.

Foi então que uma menina informou: "Fazer sentido, até faz. Mas eu não tenho tempo para fazer as atividades fora do nosso encontro".
A partir daquele momento, a educadora propôs uma atividade inspirada na metodologia da SOF (Sempre Viva Organização Feminista), chamada "Como você divide seu tempo?" (p. 25). Pediu para que as meninas escrevessem em um papel todas as atividades que fazem durante o dia e ao lado escrevessem quantas horas gastam para fazer cada tarefa. Por fim, elas fizeram a soma das horas e partilharam com o grupo.

Uma menina disse: "O meu está dando 20 horas". Outra somou e deu 50. A terceira concluiu: "Acho que eu não fiz a conta certa, porque aqui deu 32 horas, mas o dia só tem 24. O que eu fiz de errado?". Elas não fizeram a conta errada, estava tudo certo com a soma. Elas realmente estão trabalhando mais de 20 horas por dia.

É importante dizer que nessa conta feita pelas meninas não foram contabilizadas as horas de sono, lazer ou aulas da escola. Então, o que elas estão fazendo? Muitas atividades ao mesmo tempo. Participam da roda de conversa virtual enquanto trocam a fralda da irmã e preparam o café da tarde para o irmão. Estendem roupa no varal enquanto fazem almoço. Dobram os lençóis enquanto cuidam dos filhos da vizinha que precisou sair para trabalhar. Em duas horas, essas meninas realizam mais de uma tarefa que exige atenção e responsabilidade.

Mas a constatação feita nesse grupo com essas meninas não é novidade ou caso isolado. Há um artigo muito interessante, escrito por Sara Oliveira, gerente de projetos da Plan Internacional Brasil na Bahia, em que ela fala da sobrecarga de meninas durante a pandemia e o olhar sobre o trabalho doméstico infantil. As meninas trabalham o dia inteiro e, muitas vezes, suas mães estão trabalhando fora de casa e também estão sobrecarregadas.

O desejo deste texto é de contribuir para a sensibilização da leitora ou leitor para uma real demanda das meninas, sobretudo as periféricas, majoritariamente negras e que estão cansadas e sobrecarregadas.

Não se trata de uma culpabilização da família —que também está envolvida em uma sobrecarga decorrente da vulnerabilidade social e da não garantia de direitos básicos como alimentação, trabalho, educação e saúde.

Precisamos conversar mais sobre direitos de crianças e adolescentes em interseccionalidade com raça, gênero, classe e os impactos das violações de direitos nas vivências de meninas periféricas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.