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Sexualidade aflorada: discutir prazer com adolescentes vai além do sexo

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Imagem: iStock
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

16/10/2020 04h00

Eu sou educadora de gênero e sexualidade há mais de dez anos em um projeto chamado Sexualidade Aflorada, e sempre trabalhei com crianças e adolescentes.

A escolha do nome para o projeto aconteceu como uma brincadeira, a partir dos pedidos de socorro que vinham das escolas que me contratavam. Elas diziam: "Venha falar com essa molecada, porque estão todos com a sexualidade aflorada".

Em meu percurso de trabalho, já enfrentei vários obstáculos e acusações. Muita gente me aborda pensando que discutir sexualidade é incentivo ao ato sexual, mas é importante que as pessoas saibam que, na maioria das vezes que eu converso com adolescentes, elas e eles querem falar mais de afeto do que de sexo em si.

Para você ter uma ideia, a atividade que a juventude mais gosta é a oficina que eu intitulei de "Descidinha na parede: ideias para curtir uma fossa", na qual conversamos sobre a frustração de descobrir que nem sempre haverá reciprocidade quando nos apaixonarmos.

Nessa atividade, adolescentes narram suas histórias de desamores, falam sobre seus sentimentos ao levarem um fora, ao verem a pessoa amada com outra. Nós falamos de dores, nos emocionamos, mas também rimos muito nessas atividades. Tudo isso ao som de Without You, da Mariah Carey.

Nós ficamos nessa "sofrência" por quase duas horas e tudo isso é sobre sexualidade! Quando se vive em um país que está em quinto lugar no ranking de feminicídio no mundo, é fundamental que existam espaços de diálogo com meninos sobre a importância de respeitar o fim de um relacionamento ou compreender que é direito da menina escolher namorar outra pessoa.

É importante que os meninos aprendam que o fim de uma relação, por mais doloroso que seja, não significa o fim da sua vida e que é possível chorar, sofrer e aprender a lidar com os próprios sentimentos sem ofender ou ferir alguém. Uma curiosidade: você já tentou digitar "inconformado com o fim do relacionamento" no Google para ver o que aparece?

Precisamos criar um canal de conversa com adolescentes e tratar a educação emocional como parte do trabalho da educação em gênero e sexualidade.

Certa vez eu estava em atividade com adolescentes e perguntei: "O mais te dá prazer?". E um menino respondeu: "Coçar o ouvido, baita prazerzão!". A sala toda riu. Foi ali, naquele momento, que iniciamos uma reflexão sobre a importância de entender o significado da palavra prazer para além do sexo, e entender que o prazer mora no corpo todo.

Eu sou educadora de gênero e sexualidade há mais de dez anos em um projeto chamado Sexualidade Aflorada e sou grata a cada família, adolescente, criança, escola, ONG e coletivos que acreditam que refletir sobre corpo e afeto provocam gigantescas revoluções no mundo todo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.