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Escuta e acolhimento são formas importantes de prevenção ao suicídio

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

11/09/2020 04h00

ALERTA DE GATILHO: VAMOS FALAR SOBRE SUICÍDIO

Toda vez que vamos iniciar uma conversa sobre um tema delicado é importantíssimo que avisemos se há risco de o conteúdo despertar alguma recordação dolorida ou fragilidade emocional nas pessoas que pretendemos acessar. Quando convidamos alguém para um diálogo, em boa parte das vezes, não desejamos causar dor, por isso deixamos um alerta de gatilho. Isso significa que o texto que segue abordará o tema do suicídio e, por essa razão, pode gerar algum sofrimento em quem já pensou (ou pensa) em suicidar ou conheceu alguém que suicidou. O alerta de gatilho parece algo pequeno, mas é um sinal de cuidado na relação.

E é de cuidado que vamos falar aqui.

Semana passada eu trouxe uma reflexão sobre a importância de compreender a escuta como um processo, mas antes disso eu já falava do quanto é valioso viver relações que têm como base o vínculo e não a hierarquização de poder, chamei isso de Comunidade Vinculocentrada.

Estou recapitulando esses dois textos porque ao longo deste mês vamos refletir sobre a campanha de prevenção ao suicídio, conhecida como Setembro Amarelo. E para iniciar nossa reflexão, proponho um exercício: Se você nunca pensou em suicídio, escreva num papel o que você acha que faz uma pessoa pensar em suicídio?

Escreveu? Agora pegue este papel e... Jogue fora! É isso mesmo! Jogue fora, independente do que tenha escrito.

Quando uma pessoa nos conta que tem pensado ou até mesmo tentou o suicídio, é fundamental que joguemos fora todas as nossas crenças sobre o que possa ter acontecido e abramos nosso corpo todo para a escuta. Chamar o suicídio de "frescura, covardia, fraqueza..." não mudará a situação de forma positiva, pelo contrário, poderá enfraquecer seu vínculo com quem lhe pediu ajuda.

Tentar adivinhar o que a pessoa sente também não é uma forma de acolhê-la, por isso não diga: "Você está perdido! Isso é hormônio! Você ainda nem sabe o que é sofrer". Esses comentários dão uma conotação de que você sabe mais sobre a vida da pessoa do que ela mesma, e isso é impossível. Não sabemos qual é o desejo que habita o corpo do outro.

Também não precisa tentar adivinhar o que aconteceu para que a pessoa comece a ter ideações suicidas, se ela está ali, diante de você, deixe que ela fale (ou não) sobre o que a aflige e dói.

Você pode pensar: Mas é só para escutar? Inicialmente sim, isso é o melhor a se fazer.

Coloque-se ao lado da pessoa e deixe que ela te guie no processo de escuta. Se ela quiser contar, escute. Se ela quiser ficar quieta, escute. Se ela dormir, escute. Fique ali...

E depois? Depois é importante acolhê-la, dizendo que no SUS (Sistema Único de Saúde) tem um serviço chamado CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), com uma equipe sensível e preparada para acolhê-la também e que você (ou outra pessoa da rede de apoio) pode acompanha-la até lá.

Esse serviço existe em todo o território nacional, por isso é interessante pesquisar e saber onde está o CAPS mais próximo de você. Escutar e acolher sem julgamentos ou pré-conceitos é parte fundamental do processo de cuidado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.