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Elânia Francisca

Sobre bater laje e a importância da rede de apoio na prática do autocuidado

Família Fernandes batendo laje em Santo André - Arquivo pessoal
Família Fernandes batendo laje em Santo André Imagem: Arquivo pessoal
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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

07/08/2020 04h00

Eu nasci no início dos anos 80, numa cidade pequena do interior do Espírito Santo. Quando minha família decidiu se mudar para São Paulo, eu ainda era muito pequena. Viemos morar numa comunidade nova no distrito do Grajaú, extremo sul da cidade. Por ser um bairro que estava iniciando, havia muitas casas em construção, a maioria com cobertura de telhas de fibrocimento. Casas com teto de laje eram raras.

Então, quando alguém tinha condições financeiras para construir uma casa com laje, era um evento no bairro! Todo mundo se mobilizava para ajudar a bater laje do vizinho —processo que consiste em colocar massa de concreto (cimento, pedra, água e areia) em cima de uma estrutura formada por lajotas de cerâmica e vigas. Nesse processo, pouco importava se a casa era sua ou não, uns ajudavam os outros.

O evento acontecia sempre aos domingos e era preciso acordar bem cedinho para organizar tudo. Tinha o grupo que preparava a massa de cimento, outro que a carregava até o telhado e tinha o grupo que temperava a carne e organizava o churrasco. Sim! Por que bater laje também era comer, ouvir um samba, conversar e descansar.

Lembro que todas as pessoas envolvidas cantavam em coro músicas sertanejas antigas enquanto trabalhavam com o cimento ou temperavam a carne para o churrasco. Eu, criança, ficava fascinada com essa dinâmica que parecia festa, mas era trabalho!

Conto essa história para que saibam sobre meu lugar de narrativa, mas também para criar uma metáfora sobre a importância da coletividade no autocuidado.

Muitas pessoas confundem o autocuidado com não precisar de ninguém para cuidar de si, mas não é nada disso! Autocuidado é criar caminhos para cuidar de si, e um desses caminhos —o mais importante, talvez — é a construção e fortalecimento de uma rede de apoio. Todos nós precisamos de pessoas e espaços para praticar o autocuidado. É impossível cuidar de si completamente sozinho!

Até mesmo as atividades mais solitárias de autocuidado precisam de toda uma rede de apoio para que se concretizem. Para meditar, por exemplo, é preciso silêncio total no local, então eu preciso pedir que as demais pessoas do meu convívio não façam barulho. Mas lembre-se: é preciso pedir!

O autocuidado acontece com suporte da rede de apoio, formada por nosso círculo de amizade, vizinhança, família, serviços públicos, grupos de socialização, espaços terapêuticos e por aí vai...

Assim como bater laje, o autocuidado não se pratica somente com trabalho, mas também com uma boa alimentação, encontros, música e conversas (no contexto de pandemia, façamos isso com telefonemas, vídeo-chamadas e encontros virtuais).

Bater laje, nesse esquema que mencionei, não é sobre fortalecer sozinha a minha casa, é sobre somar no fortalecimento de casas que eu nem moro, mas que tenho afeto e respeito pela construção

O ritual de bater laje se parece muito com o exercício de autocuidado nesse sentido. Precisamos de uma comunidade inteira para cuidar da gente, e essa comunidade toda precisa de nós para cuidar dela.