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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que infarto e câncer podem ser recorrentes na mesma pessoa

Não se engane: não é só DNA que predispõe a doenças, hábitos contam muito - iStock
Não se engane: não é só DNA que predispõe a doenças, hábitos contam muito Imagem: iStock
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Edmo Gabriel

Colunista do UOL

26/03/2022 04h00

A questão em pauta não é necessariamente ter um infarto do coração e um câncer de forma simultânea. Seria tratar da questão intrigante que atinge algumas pessoas: uma propensão genética tão forte para uma determinada doença, a ponto de ter um histórico de mais de um episódio de infarto do coração e um câncer de um determinado órgão mais de uma vez.

Por que isto pode acontecer? Nosso corpo é como uma fábrica, na qual várias atividades operacionais ocorrem incessantemente, desde a formação de um ser humano no ventre materno até o final da vida. Estas atividades operacionais dependem fundamentalmente de nossa estrutura genética e dos hábitos de vida que adotamos.

O desafio para qualquer pessoa é saber o quanto sua estrutura genética pode favorecer o aparecimento de determinadas doenças, como é o caso do infarto e do câncer. Mais do que isso, fica sempre a dúvida acerca das causas de uma pessoa desenvolver a mesma doença várias vezes. Em muitos casos, sabe-se que a recidiva de uma doença pode impactar significativamente no tempo de vida de uma pessoa.

Quando se faz um histórico familiar acerca da propensão para um infarto do coração ou um câncer, ficam nítidas algumas particularidades que, na verdade, são pistas que deveríamos valorizar se quisermos executar estratégias preventivas.

Um exemplo muito típico é quando percebemos que dois ou três membros da mesma família morreram pela mesma doença tendo praticamente a mesma faixa etária. Para os cardiologistas, como eu, seria muito representativo notar que dois ou três membros de uma certa família tiveram infarto do coração antes dos 40 anos. O mesmo raciocínio seria válido no caso de um câncer.

Além de fatores genéticos, não podemos desvalorizar a importância do estilo de vida, especialmente quando nosso foco é o infarto do coração ou câncer. Todos nós queremos viver bastante, produzir algo, consumir, desfrutar das coisas boas da vida. Tudo isto está envolvido nas escolhas que fazemos quanto ao estilo de vida.

Podemos adotar um estilo de vida não saudável e contar com a sorte genética de não termos uma propensão significativa para um infarto ou um câncer. Isto pode acontecer sim —quantas pessoas fumam durante a vida toda e não morrem de um câncer! Quantas pessoas ingerem alimentos gordurosos e vivem mais de 90 anos!

Entretanto, muitos estudos mostram que seria muito arriscado confiar somente nos fatores genéticos. Eu vejo muito no consultório as pessoas dizendo: "Não tem ninguém que morre do coração ou de câncer na minha família, então não me preocupo tanto com meus hábitos". Este é um grande erro de cálculo.

O estilo de vida também é extremamente determinante para o desenvolvimento de doenças como infarto do coração e câncer.

Muitos fatores de risco estão relacionados ao estilo de vida, como o tabagismo, sedentarismo, obesidade, colesterol elevado, etilismo, diabetes e estresse. Muitas vezes a somatória de muitos fatores de risco pode ser maior do que a propensão genética para desenvolver uma doença. Confiar exclusivamente em seu histórico familiar favorável não deveria ser a melhor conduta.

Uma pessoa pode apresentar a mesma doença mais de uma vez, como infarto do coração e câncer, em decorrência de sua estrutura genética, em decorrência de seus hábitos de vida ou ambas situações associadas.

Há pessoas que acumulam muito colesterol no sangue mesmo tendo uma vida ligada aos esportes e isto pode ser justificado pelo fator genético. Por outro lado, há pessoas que não têm um histórico familiar importante para o infarto, mas seus hábitos alimentares contribuem para o colesterol muito elevado.

Quando o foco é câncer, sabemos que o tabagismo pode justificar o aparecimento de tipos variados desta doença. O tabagismo pode justificar a recidiva deste câncer se a pessoa não conseguir abandonar este vício, mesmo após o diagnóstico e o tratamento do primeiro tumor. No entanto, há pessoas com tanto acúmulo de herança genética que, mesmo parando de fumar, o câncer pode voltar.

Vocês devem estar questionando: qual a porcentagem para o fator genético e qual a porcentagem para o estilo de vida, quando o assunto é tentar entender por que infarto do coração ou câncer podem aparecer na mesma pessoa mais de uma vez?

A ciência ainda está buscando, com maior precisão, uma definição mais clara sobre isto. Testes genéticos que estão cada vez mais sendo aprimorados poderão ser a revolução que ainda falta neste mundo confuso de tantas contradições e dúvidas.

De qualquer forma, quero deixar três importantes mensagens sobre a possibilidade de recidiva de um infarto do coração ou de um câncer: não subestimem o histórico familiar, não queiram adotar estilo de vida não saudável baseado em parentes que viveram de forma longeva e, por fim, sigam as orientações que a ciência já vem estabelecendo quanto aos melhores alimentos e hábitos considerados mais saudáveis.