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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Gabriel Medina: a constante busca pelo equilíbrio

Pat Nolan/World Surf League
Imagem: Pat Nolan/World Surf League
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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

29/01/2022 04h00

Por que o equilíbrio é um bem tão precioso? Na teoria, mais especificamente na física, aprendemos que o equilíbrio pode ser algo estático, quando várias forças se anulam sobre um mesmo objeto em repouso, como também o equilíbrio pode ser dinâmico, quando estas forças também se anulam ainda que este objeto esteja se movimentando.

Interessante perceber que o conceito é extremamente simples, mas a execução do mesmo pode se tornar um grande desafio.

Quando estamos dentro de um avião e o mesmo começa a balançar, a famosa e temida turbulência, estamos na verdade vivenciando a iminência de um desequilíbrio de forças. Nosso corpo funciona adequadamente mediante um equilíbrio entre os diferentes órgãos: o coração precisa bombear o sangue, o rim precisa filtrar este sangue, o fígado precisa processar toxinas presentes neste sangue, o pâncreas precisa metabolizar o açúcar presente neste sangue por meio da insulina e assim por diante.

Podemos até afirmar que morremos simplesmente quando ocorre um intenso desequilíbrio em nossas funções orgânicas.

E o equilíbrio mental? Teria menos importância? Jamais! O equilíbrio mental é algo tão complexo, tão difícil de mensurar que muitas vezes temos de tomar decisões drásticas para conseguir anular as forças que estão excessivamente se sobressaindo e causando o desequilíbrio.

Vamos continuar analisando sob o ponto de vista da física —forças excessivas podem desequilibrar, podem romper uma estrutura.

Do ponto de vista da nossa mente, vocês conseguem imaginar a quantidade de forças presentes? Para ilustrar este cenário, vamos analisar o caso do surfista Gabriel Medina. Recentemente ele expressou as seguintes ideias: "Somado ao corpo vem a mente, que também não está na melhor fase. Venho de meses desgastantes. E eu preciso olhar para mim neste momento e me cuidar. Para quem não está bem, tomar uma decisão como essa não é fácil".

Sucesso, prosperidade e plenitude, tanto na vida pessoal como na vida profissional, dependem basicamente do equilíbrio de forças. Destrinchando as colocações feitas por Medina, encontramos a realidade que todos nós, sem exceção, já vivenciamos em algum momento de nossas vidas.

As ideias que ele lançou nos permitem inclusive elaborar questões a serem serem feitas para nossos familiares, amigos e principalmente para nós mesmos. Mas sabem qual o detalhe principal? Não sei se teremos respostas para estas questões e esta dificuldade de responder pode acusar um permanente desequilíbrio, que passa desapercebido ao longo de nossas vidas. Vejam o quanto isto pode ser confuso, complexo e relativo:

Questão 1 - Você está na sua melhor fase?

Algumas pessoas podem dizer que estão plenamente realizadas dentro de seu núcleo familiar, com um relacionamento sadio dentro de casa, mas que ainda não se "encontraram" no âmbito profissional. A fase sentimental pode estar bem bacana, mas os projetos financeiros ainda muito distantes de uma concretização.

Funciona como uma gangorra, na qual um setor da vida está otimizado e consolidado, ao passo que outro setor ainda oscila e causa apreensão. Muitos de nós não estamos assim? Gabriel Medina expressou uma realidade presente na vida de inúmeras pessoas, que lutam para se equilibrar nesta gangorra que não para de oscilar.

Questão 2 - O que é estar desgastado(a)?

Quando fazemos muito esforço físico, nós ficamos cansados ou desgastados. Pode parecer a mesma coisa, sendo que, fisiologicamente, podemos entender como cansaço uma reação normal e compatível com determinado nível de esforço.

No entanto, quando assumimos que existe desgaste, a conotação é bem diferente, visto que aponta para o desequilíbrio. Desgaste físico e desgaste mental, segundo enfatizado por Medina, são condições que favorecem ou que eventualmente exigem algum tipo de ruptura. No caso dele, terminar um relacionamento conjugal e "dar um tempo" na carreira profissional.

Muitos devem estar pensando: "ele errou e tomou decisões de forma precipitada"; outros devem estar concordando com ele e pensando: "eu faria até coisas mais drásticas". Vejam que até no julgamento do mérito das atitudes de Medina, pode prevalecer um profundo desequilíbrio.

Questão 3 - O que te faz olhar para você?

Medina chamou atenção para a importância de olhar mais para si mesmo, cuidar mais de si mesmo. Poderíamos interpretar esta situação como uma necessidade premente de resgatar a autoestima? Quem nunca vociferou pelos cantos dizendo: "eu faço tudo pelos outros e esqueço de mim" ou então "eu vivi minha vida pelos outros e, quando me atentei, meu tempo havia passado".

Nestes pensamentos reside uma importantíssima lição acerca do equilíbrio. Os seres humanos necessitam de uma vida socializada, desde que os benefícios de um relacionamento ou de uma convivência sejam motivadores para os dois lados do processo.

Considerando que alguns sentimentos agem como forças sobre um ser humano, especialmente sobre a mente desta pessoa, podemos concluir que quando o egoísmo, narcisismo, soberba e ciúme excessivo predominam, surge de imediato o desequilíbrio e uma nítida iminência de ruptura.

Questão 4 - Por que tomar decisões não é fácil?

Vejam que confuso e ao mesmo tempo interessante: Medina enfatizou que "para quem não está bem, tomar uma decisão como essa não é fácil".

Criando um contraponto para fins ilustrativos, imaginem que vocês trabalharam numa empresa durante muitos anos, conquistaram estabilidade financeira e renome profissional e, num certo momento, tomaram a decisão de encerrar o ciclo e mudar de ares. Vocês estavam bem, estáveis e, mesmo assim, tomaram uma decisão que não é fácil, correto?

Então por que seria difícil tomar uma decisão de ruptura quando verdadeiramente tudo indica que as coisas não estão indo bem? Seria por medo, insegurança, indecisão? Seja o que for que estiver prevalecendo neste cenário, percebemos que a questão crucial não é a tomada de decisões em si, mas a não abordagem da raiz do problema, a verdadeira "nascente" do problema —o desequilíbrio encravado na vida daquela pessoa.

O mesmo desequilíbrio que norteia a instabilidade mental presente em tantas etapas da vida. Muitos de nós buscamos constantemente a felicidade e a plenitude, mas insistimos em ficar sobre cordas que balançam sobre verdadeiros precipícios.

Nós insistimos em negar a raiz do problema, ou seja, o desequilíbrio que já habita nossas vidas e que, por algum motivo, não percebemos ou eventualmente subestimamos. Um desequilíbrio que pode comprometer nossa saúde mental.

O caso de Gabriel Medina é determinante para mostrar nossa tendência humana: deixar a corda praticamente romper para aí então buscar uma solução. Quase afogar para então pedir socorro.

Nossa saúde mental precisa do equilíbrio e este equilíbrio depende de anularmos todas as forças presentes na raiz do problema.