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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A importância do Carnaval para a nossa saúde (ou do cancelamento dele)

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

08/01/2022 04h00

Quantas vezes já ouvimos alguém dizer que existem tragédias anunciadas? Seriam situações óbvias quanto ao risco de algo não correr bem, de ocorrer insucesso ou mesmo uma catástrofe.

Uma tragédia anunciada significa correr riscos sem que haja nenhuma justificativa plausível para isto. Vários episódios na história do Brasil e do mundo, que resultaram em desfechos trágicos, confirmaram uma máxima muito conhecida: "a soberba precede a ruína".

Os relatos acerca do naufrágio do Titanic, em 1912, demonstram claramente que houve excesso de confiança quanto à suposta inabalável estrutura do navio. Um grande pedaço de gelo afundou o suntuoso navio. No dia 31 de dezembro de 1988, na baía da Guanabara, a embarcação Bateau Mouche afundou graças a uma infraestrutura nitidamente inadequada e precária e as muitas vidas perdidas representaram a tragédia já prevista. Quando a presunção e a soberba predominam, certamente os desfechos não serão agradáveis.

Acredito que poucos questionem o quanto as festas de Carnaval de 2020 foram determinantes na disseminação do coronavírus no Brasil. Embora não houvesse ainda o estado de calamidade pública em fevereiro de 2020, as festas de Carnaval, caraterizadas por excessiva aglomeração e contato físico, foram verdadeiros gatilhos para um vírus e para uma pandemia que ainda se organizavam para mudar a história de vida das pessoas.

Já estamos em 2022, o terceiro ano da pandemia do coronavírus, muitas pessoas ainda necessitando de vacinação e estamos cogitando realizar as festas de Carnaval. O Carnaval é uma tradição brasileira e ninguém irá mudar isto.

O Carnaval não é só festa, também é um negócio muito amplo, que movimenta muitos setores, ou seja, sabemos que a realização desta festa implica aspectos comerciais imensuráveis.

A questão crucial é que a pandemia do coronavírus ainda não acabou. Todos nós queremos que ela acabe, todos nós queremos acordar e ler nos jornais que a pandemia acabou, tal como quando uma grande guerra acaba.

Não é possível querer o fim da pandemia e também querer que tenhamos festas de Carnaval. Por um motivo muito simples: novamente a tragédia anunciada.

Realizar as festas de Carnaval em 2022 seria anunciar, de forma antecipada, que iremos enfrentar e vivenciar uma grande tragédia. Uma festa de aglomeração e de contato físico não cabe neste atual momento. Esta clara concepção acerca do risco que correremos é o que me motiva a destacar que o Carnaval é fundamental para nossa saúde.

Fundamental não como festa em si, mas como exemplo incontestável de uma tragédia anunciada, de um cenário tenebroso de altíssimo risco que, como tal, pode ser prevenido se houver bom senso e responsabilidade.

Mas existem diferenças, quanto ao risco, de realizar as festas de Carnaval em locais fechados e ao ar livre? Sim, certamente existe esta distinção, provavelmente com maior risco no caso das festas de rua. Entretanto, qual seria a lógica de insistir em realizar as festas de Carnaval, simplesmente por existir uma situação de um risco supostamente menor? Diante da iminência de uma tragédia, com risco de vida e sobrecarga dos hospitais, justificaria apostar em risco menor?

Todos nós já estamos vendo que a situação da pandemia apresentou uma piora recente, causada pelas variantes como a ômicron e também pela falta de precaução durante as festas de fim ano. Ainda que esta variante ômicron aparentemente não ofereça letalidade, sua capacidade de incrementar a transmissão do coronavírus é muito significativa.

Paralelamente, estamos também enfrentando uma verdadeira pandemia da gripe influenza H3N2, que não está sendo simples de controlar e tem causado lotações nos hospitais públicos e privados.

Nesta conjuntura de pandemias, temos acompanhado uma outra realidade que se destaca —muitas pessoas contaminadas simultaneamente pelo coronavírus e influenza H3N2 —o chamado "flurona".

Considerando estas contaminações simultâneas, basta incentivarmos a aglomeração e o contato físico para gerar uma verdadeira explosão de casos de flurona. Diante de tudo isto, ainda estamos cogitando realizar festas de Carnaval em 2022?

Para quem ainda não percebeu, estamos numa nova fase da pandemia ou das pandemias —mais de um vírus presente nas gotículas respiratórias, muitas variantes de cada vírus sendo sazonalmente descobertas, a estrutura de saúde pública e privada ameaçada por um "arrastão" de casos que cada vez mais aumenta, a busca pela vacinação sendo retomada em caráter emergencial.

O Carnaval de 2022 será fundamental para a nossa saúde, será um marco em melhorar as perspectivas ou eventualmente sepultar as esperanças de um ano mais leve. O Carnaval de 2022 será uma mudança de paradigma, não pela festa em si e suas nuances lúdicas, mas por estar anunciando, desde os primórdios de 2022, a tragédia que poderemos estar vivenciando.

Viva o Carnaval de 2022, pois, sem ele, talvez não estivéssemos aqui neste texto avaliando riscos e tendo medo da catástrofe que pode aflorar nas ruas, salões de clubes e sambódromos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL