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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Exercício físico melhora a depressão nas pessoas mais idosas

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

04/09/2021 04h00

Imaginar que a depressão está relacionada, direta ou indiretamente, com cerca de 1 milhão de mortes ao ano, consiste em motivo plausível para se buscar constantemente o controle desta condição clínica tão comum e tão devastadora.

Muitos estudos apontam o papel do exercício físico como forma de prevenir ou atenuar os efeitos que a depressão exerce sobre nosso corpo e nossa saúde. A depressão é uma condição clínica muito séria, que exige um diagnóstico precoce e acompanhamento rigoroso.

Partindo do princípio de que existem formas não medicamentosas na abordagem da depressão, o exercício físico passa a ocupar papel de protagonista e não seria exagero incluir as atividades físicas regradas e regulares como atitudes prioritárias, sobretudo nas pessoas mais idosas.

Diversos estudos de correlação mostram que as pessoas com idade mais avançada, provavelmente pela maior limitação física e também pelo maior acúmulo de comorbidades, apresentam maiores taxas de depressão, a qual, na prática, caracteriza-se pelo rebaixamento do humor, isolamento social, desmotivação e senso muito intenso de autopunição.

Deve-se salientar que a depressão é uma condição tão complexa, dificultando precisar a origem ou o estopim deste processo. Muitos fatores podem estar envolvidos, como questões genéticas, biológicas, ambientais, sociais e psicológicas.

Há evidências mostrando que, a partir dos 40 anos de idade, nosso cérebro apresenta redução de 5% de seu volume e peso a cada 10 anos. Além disso, a medida que envelhecemos, ocorre uma acentuação do processo inflamatório decorrente de diversas comorbidades que acometem nosso corpo, como a hipertensão arterial e o diabetes melitus.

Mas, afinal, em que momento ou de que forma o exercício físico poderia quebrar este paradigma quase intocável de sabermos que envelhecer representaria assumir quadros depressivos em nossa rotina?

A resposta seria baseada na percepção de que os medicamentos são extremamente importantes, mas ao mesmo indutores de muitos efeitos colaterais indesejáveis. Diante deste cenário, o exercício se impõe como uma alternativa muito interessante.

Alguns estudos destacam o papel de duas modalidades —corrida e ciclismo— como altamente eficazes no combate à depressão. No entanto, por uma questão de bom senso, sabemos também que as pessoas mais idosas poderão não conseguir realizar atividades físicas exigidas por estas duas modalidades citadas. Assim, outras atividades como caminhadas, ioga e Tai Chi têm despontado favoravelmente ao maior controle dos sintomas depressivos.

Retomando a questão da redução do volume cerebral ao longo da vida como um dos fatores relacionados a depressão, pode-se combater esta alteração estrutural do cérebro por meio de exercícios físicos aeróbicos, os quais são extremamente importantes para maior absorção de oxigênio.

Idoso mostra músculos, forte, saudável - iStock - iStock
Imagem: iStock

A questão crucial seria manter a prática deste tipo de exercício físico durante boa parte da vida e não esperar atingir idades mais avançadas para tentar executar este tipo de atividade. Este tipo de exercício também é capaz de estimular algumas habilidades como a localização no espaço e a memorização.

Do ponto de vista fisiológico e bioquímico, atividades físicas promovem a modulação ou a estabilidade de algumas substâncias essenciais ao pleno funcionamento de nossa mente. Estas substâncias são conhecidas como neurotransmissores, visto que são sinalizadores químicos dentro do nosso cérebro. Poderíamos destacar três neurotransmissores que são ativados pelo exercício físico: noradrenalina (relacionada com nosso estado de consciência), serotonina (relacionada com nosso estado de ansiedade) e a dopamina (relacionada com nossa sensação de recompensa e prazer).

Não há como questionar o poderoso efeito anti-inflamatório das atividades físicas. E este efeito se aplica não somente ao cérebro, mas também a todos os nossos órgãos e sistemas. Existem estudos demonstrando que 12 semanas (3 meses) de atividade física bem coordenada são capazes de mudar o ambiente químico de nosso cérebro e produzir expressiva quantidade de substâncias anti-inflamatórias e, desta forma, combater efetivamente a depressão.

Em pessoas mais idosas, que normalmente já são mais suscetíveis à depressão, esta terapia física poderia gerar resultados formidáveis.

Além da regulação dos neurotransmissores e da produção de substâncias anti-inflamatórias, já foi devidamente comprovado que o exercício físico promove maior imunidade e, consequentemente, permite que nossas células de defesa executem suas funções com maior eficiência.

Isto é tão importante que, nas pessoas mais idosas, os quadros depressivos podem estar associados com quadros infecciosos. Em outras palavras, praticar exercício físico pode auxiliar no combate às ações de germes causadores de infecções como também aos estados depressivos.

Diante de tantas evidências a favor do exercício físico, principalmente no combate à depressão em pessoas mais idosas, não podemos deixar de enfatizar que os resultados positivos somente virão se houver periodicidade e intensidade.

Não adianta praticar atividades físicas de forma muito pontual ou muito aleatória. Tem de existir disciplina e força de vontade. O exercício físico pode efetivamente mudar nossas vidas de forma muito positiva e, melhorando os quadros depressivos, com certeza nossa qualidade de vida, nossa disposição e nossas aspirações serão cada vez maiores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL