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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Será que o colesterol é sempre vilão e inimigo do coração?

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

14/08/2021 04h00

São tantas as informações que pairam sobre o colesterol que, muitas vezes, as pessoas ficam claramente confusas quanto aos fatos que são verdadeiros, quanto ao que realmente depõe a favor ou contra o colesterol e também se o colesterol deve ser taxado sempre como o vilão das doenças e fatalidades que vivenciamos.

Existem, para complicar toda a situação e dificultar mais ainda a padronização, situações extremamente conflituosas em nossa rotina, sobretudo quando recebemos os resultados de exames de check-up e começamos a correlacionar com outros aspectos pertinentes.

Como já defendi em outras publicações desta coluna, a medicina não é exata, embora tenha lógica, mas esta falta de exatidão gera entraves sobre qual o verdadeiro caminho a seguir quando se fala de colesterol.

De qualquer forma, vou começar compartilhando com vocês as situações mais frequentes de nosso cotidiano, que costumam promover dúvidas sobre o colesterol.

Situação 1

Os resultados indicam que meu colesterol no sangue está bom e controlado, mas meu exame de ultrassom abdominal apontou que tenho esteatose hepática importante (depósito importante de gordura no fígado).

Situação 2

Os resultados indicam que colesterol e triglicérides apresentam taxas completamente opostas —um está muito elevado e outro completamente normal.

Situação 3

Tenho colesterol elevado no sangue e, ao ser submetido a um cateterismo cardíaco, as artérias coronárias (aquelas que irrigam o músculo do coração) apresentam obstruções por placas de gordura muito discretas.

Situação 4

Fiz exame das artérias carótidas (aquelas que ficam no pescoço e que comunicam o coração e o cérebro) e uma delas está com 90% de obstrução. No entanto, meu colesterol no sangue está normal.

Situação 5

Meu pai tinha feito exames de colesterol e estava tudo bem, mas uma semana depois, ele teve um infarto e teve de passar por um procedimento cardíaco invasivo.

Após estas considerações acima, torna-se muito evidente que não devemos esperar que haja uma correlação precisa entre os níveis de colesterol no sangue e qualquer outro evento ou qualquer outra substância a ser dosada também no sangue, como no caso dos triglicérides.

Colesterol saúde do coração - iStock - iStock
Imagem: iStock

Outro ponto essencial a ser absorvido é que o colesterol deve ser entendido como uma molécula necessária a composição de algumas estruturas de nosso corpo, como uma molécula necessária a produção de alguns hormônios e também como uma molécula que se subdivide em algumas categorias como o HDL - considerado como colesterol "bom" e protetor ou como LDL - considerado como colesterol "ruim" que contribui para o entupimento dos vasos sanguíneos.

De forma prática, tendo como base a vivência profissional e a literatura médica, podemos deixar algumas mensagens importantes:

O colesterol não é o vilão isoladamente!

Para justificar isto: muitas pessoas alimentam-se de forma errada, exageram nas frituras, doces, carnes gordurosas e o colesterol destas pessoas não se eleva de forma significativa. Seria um milagre? Claro que não!

A questão crucial é que nosso metabolismo ou nossa capacidade de digerir o colesterol excessivo difere entre, sendo que algumas pessoas realmente apresentam um privilégio genético de conseguir eliminar o colesterol com maior eficiência.

Esta seria uma das razões para justificar a presença de colesterol normal numa pessoa que come errado. Entretanto, estas pessoas "privilegiadas" estão isentas de apresentar complicações cardiovasculares derivadas da alimentação errada? Não!

Neste universo um pouco confuso, existe um outro processo envolvido chamado inflamação, que pode, mesmo com níveis normais de colesterol, conduzir uma pessoa a alguns desfechos cardiovasculares como infarto do coração e uma trombose.

O excesso de colesterol na alimentação causa uma alteração na parede dos vasos sanguíneos, facilitando a agregação de coágulos —este cenário seria uma manifestação clara de um processo inflamatório em vigência.

Colesterol elevado não significa necessariamente que uma fatalidade está na iminência de acontecer.

Vejam bem: o colesterol deve ser analisado do ponto de vista de suas frações mais conhecidas: HDL e LDL. Uma taxa de colesterol elevada às custas dos níveis de HDL, que seria o colesterol protetor, seria o propósito de qualquer estratégia focada na prevenção dos agravos como infarto, trombose e AVC.

Infarto e AVC não "precisam" de colesterol alto.

Infarto do coração - iStock - iStock
Imagem: iStock

Um infarto do coração, uma trombose nas pernas e um AVC não precisam necessariamente de colesterol elevado para acontecer.

Sabe qual o grande pré-requisito para que estes eventos aconteçam? Processo inflamatório avançado nos vasos sanguíneos causando espasmos, tortuosidades, irregularidades e consequente redução do fluxo sanguíneo. A inflamação "trabalha" com maior independência para promover estes eventos e agravos citados. O colesterol sozinho em si pode não conseguir exercer todos os malefícios que podemos imaginar.

Colesterol normal pode te enganar.

Níveis normais de colesterol no sangue não significam que alguns órgãos, como o fígado e os rins, não possam estar acumulando depósitos de gordura. O fígado, dentre as incontáveis funções que executa, funciona como uma "lixeira" em nosso corpo, absorvendo toxinas e gorduras e tentando processar a eliminação deste conteúdo.

Podemos dizer, de forma muito objetiva, que nosso fígado tenta "segurar a barra", quando continuamente as pessoas insistem em cometer falhas no seu padrão alimentar e estilo de vida.

Colesterol e triglicérides devem ser analisados separadamente.

Colesterol e triglicérides são moléculas diferentes e estão presentes em alguns tipos particulares de alimentos. O colesterol geralmente é proveniente de alimentos de origem animal como carnes vermelhas, gema do ovo, frutos do mar e o leite. Os triglicérides geralmente são provenientes de alimentos ricos em carboidratos, como biscoitos, bolos, bolachas, sorvete e pães.

As bebidas alcoólicas como cerveja e alguns destilados também podem elevar os níveis de triglicérides. Desta forma, na dependência dos hábitos e preferências alimentares das pessoas, podemos encontrar pessoas com colesterol elevado e triglicérides normais ou vice-versa.

No tocante às consequências do acúmulo maior de colesterol ou de triglicérides, as pessoas poderão vivenciar alguns eventos semelhantes como infarto do coração e AVC e alguns eventos mais específicos, como a pancreatite, a qual está mais relacionada aos níveis elevados dos triglicérides.

Alguns exames específicos podem ajudar a analisar sua saúde.

Nos últimos anos, surgiram exames bioquímicos e genéticos que permitem identificar as tendências de desenvolvermos maior ou menor processo inflamatório no ambiente dos vasos sanguíneos de nosso corpo.

Alguns exames que poderiam ser solicitados para dosagem no sangue seriam: PCR ultrassensível (proteína C reativa) e homocisteína. Quando elevados, estes dois marcadores podem refletir um estado inflamatório de nossas artérias, independentemente se os níveis de colesterol estão altos também.

Colesterol nas mulheres

Mulheres reunidas em churrasco planos para pós-quarentena dos signos - FG Trade/Getty Images - FG Trade/Getty Images
Imagem: FG Trade/Getty Images

Ainda que o confronto entre as situações e mensagens acima possa elucidar melhor as constantes dúvidas e questionamentos acerca do verdadeiro papel do colesterol na nossa vida e nas doenças que nos atingem, temos de continuar convivendo com algumas questões muito intrigantes e desafiadoras.

Assim, quero trazer para vocês uma análise feita recentemente, no ano de 2019, e que diz respeito ao colesterol especificamente no contexto na saúde das mulheres.

Do ponto de vista estatístico e epidemiológico, o sexo feminino costuma ser apontado como fator de risco para a ocorrência de derrame cerebral, em virtude de muitos aspectos, entre eles os fatores hormonais ao longo da vida de uma mulher.

Além disso, este estudo realizado em 2019, por pesquisadores da Harvard University (EUA), demonstrou que níveis muito baixos do colesterol LDL, classicamente conhecido como o colesterol "ruim", poderiam contribuir para maior taxa de derrame cerebral hemorrágico. Pode parecer estranho num primeiro momento, mas existe uma explicação plausível.

Considerando que o colesterol também faz parte da composição de muitas estruturas de nosso corpo, como os vasos sanguíneos, uma redução significativa do colesterol LDL , apontada por este estudo como sendo de risco valores de LDL abaixo de 70 mg/dL, poderíamos identificar a formação de aneurismas nas artérias cerebrais destas mulheres, devido a dilatação e enfraquecimento destas artérias.

Consequentemente, a partir destes aneurismas, haveria maior propensão para rotura e derrame cerebral hemorrágico.

Médico deve analisar índices e estilo de vida

Concluindo, podemos então reforçar que a medicina não segue uma linha totalmente exata quanto aos acontecimentos e as correlações, sendo que o colesterol é um importante representante deste universo de inexatidão.

Nossa tarefa é adotar hábitos de vida saudáveis, realizar exames periódicos e buscar sempre a orientação de um especialista para compreender as divergências que fatalmente ocorrerão quando confrontamos diferentes resultados e parâmetros.

Também seria prudente incorporarmos, sempre que houver disponibilidade e acessibilidade, exames mais modernos que possam refletir tendências genéticas e tendências adquiridas, referentes a maior ou menor grau de inflamação nos vasos sanguíneos de nosso corpo.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL