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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que o intestino tem relação com o autismo?

Microbiota é composta pelas bactérias que habitam o nosso intestino - iStock
Microbiota é composta pelas bactérias que habitam o nosso intestino Imagem: iStock
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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

31/07/2021 04h00

Quem diria que um dia fôssemos valorizar o intestino em meio a tantos fatores, alguns ainda obscuros, que permeiam o universo do espectro autista? Uma alteração comportamental associada às bactérias do nosso intestino?

Pois é, ainda que pareça estranho e até esdrúxulo, esta é uma questão que cada vez mais ganha veracidade e fundamento.

O espectro autista reúne basicamente modificações na comunicação e na interação social, podendo ser diagnosticado em fases precoces da vida. Esta relação entre o espectro autista e nossa microbiota (germes que habitam nossos intestino) passou a vigorar com maior expressão quando houve efetivamente o entendimento de que existe um eixo de comunicação entre o cérebro e o intestino.

A saúde intestinal tornou-se um conceito mais abrangente a medida que o intestino deixou de ser simplesmente um órgão digestivo. Diferentemente do que se estabeleceu por anos, o intestino passou a "pensar" e não apenas ser um órgão de condução e transporte. Mais coloquialmente, entendeu-se que o intestino seria um "segundo cérebro".

A microbiota de nosso intestino é um verdadeiro milagre da vida ou um caminho para a morte. Tudo vai depender de sua qualidade e quantidade. Tudo vai depender de nossos hábitos, estilo de vida e herança genética. Dessa forma, o espectro autista pode ser influenciado pelos germes que constituem e habitam nosso intestino.

Aliando esta lógica ao fato de podermos intervir na estrutura quantitativa e qualitativa de nossa microbiota intestinal, vêm à mente algumas perguntas: quais são os princípios gerais que regem nossa microbiota e quais ajustes podemos fazer ao longo da vida?

Assim, para que todos compreendam e passem a valorizar mais nossa microbiota, seguem 10 princípios essenciais:

1) A nossa microbiota sofre a influência do grau de acidez da alimentação e da quantidade de água ingerida.

2) As bactérias de nossa microbiota intestinal podem variar de acordo com a forma de nascimento de um ser humano (parto normal ou cesárea) e também de acordo com o tempo de aleitamento materno exclusivo. Alguns estudos defendem que as crianças amamentadas exclusivamente com leite materno até o sexto mês de vida teriam menor probabilidade de apresentar autismo, alergias e doenças neurodegenerativas.

3) Nossa microbiota dificilmente permanece estável ao longo da vida; os hábitos alimentares e o nível de estresse podem tornar esta microbiota muito frágil no que tange às funções hormonais e sistêmicas de nosso intestino.

Dietas muito ricas em carboidratos e uso inadvertido de antibióticos são alguns exemplos de situações determinantes para a instabilidade de nossa microbiota. Pensando no autismo, podemos inferir que estes hábitos, quando presentes na rotina da mulher gestante, podem ser decisivos em favorecer a ocorrência das manifestações clássicas do referido espectro.

4) Em alguns estudos, o uso de probióticos (alimentos contendo microrganismos vivos) tem sido considerado como uma forma de melhorar e reorganizar nossa microbiota intestinal e, desta forma, auxiliar no controle das manifestações do espectro autista.

5) As bactérias de nossa microbiota intestinal são capazes de produzir substâncias conhecidas como neurotransmissores e, como o próprio nome já diz, estas sinalizam informações para nosso cérebro acerca de várias coisas que já estão acontecendo ou irão acontecer em nosso corpo.

Disto resulta a eficiência do eixo cérebro-intestino. No entanto, esta sinalização só funciona adequadamente de acordo com a quantidade e qualidade de nossa microbiota. Em outras palavras, precisaríamos fazer de tudo para que nossa microbiota trabalhasse a nosso favor, sinalizando um câncer que pode estar em curso, uma alteração neuropsicossocial como o autismo e doenças cardiovasculares ainda incipientes.

6) Existem evidências de que as mulheres gestantes que desenvolvem diabetes durante a gravidez e que previamente eram obesas teriam maior probabilidade de ter filhos com espectro autista. O diabetes poderia promover a disbiose, ou seja , um estado de desequilíbrio da microbiota intestinal.

7) As crianças com espectro autista tendem a apresentar problemas digestivos, sobretudo constipação e diarreia. Também podem ser notados sinais de deficiência imunológica nestas crianças, com maior exposição a diversos tipos de infecção.

8) O desequilíbrio da microbiota intestinal, seja qual for o fator causal, compromete a quantidade de alguns produtos metabólicos e algumas células de defesa. Mais especificamente, os aminoácidos (produtos derivados das proteínas) e o butirato (derivado dos carboidratos), além das células de defesa conhecidas como linfócitos, podem ser comprometidos de forma significativa e exacerbar as manifestações do espectro autista.

9) Em relação às medidas para melhorar a qualidade da microbiota intestinal e também diminuir o impacto negativo da mesma nas pessoas com espectro autista, já despontam algumas orientações dietéticas, sendo a principal o consumo maior de frutas, verduras, proteínas e substratos ricos em potássio, cálcio e cobre. Há evidências a favor do uso de ômega 3 e carnitina para melhorar a qualidade da microbiota intestinal em pessoas com espectro autista.

10) O transplante de fezes ou de microbiota intestinal possivelmente seria a medida mais objetiva e direta para entregar ao portador de espectro autista um melhor padrão de bactérias intestinais. Ainda é um processo em crescimento e constante investigação, mas os resultados têm sido promissores.

Muitas famílias convivem com pessoas portadoras do espectro autista sem saber como lidar com elas, sem entender a origem daquele comportamento diferente e sofrendo demasiadamente devido ao preconceito social que ainda existe.

Como o diagnóstico do espectro autista geralmente é feito na infância, estas crianças crescem em meio a uma série de instabilidades na escola, nas relações humanas e na convivência diária com seus pares.

Considerando este cenário e enfatizando que o espectro autista não é sinônimo de incapacidade física e intelectual, as pesquisas mais modernas têm apontado para esta correlação com a quantidade e qualidade da microbiota intestinal.

Dessa forma, o conhecimento mais apurado acerca dos benefícios de algumas medidas dietéticas e o acompanhamento médico feito por um especialista podem mudar o prognóstico e o curso natural desta pessoa com espectro autista e que sofre constantemente por questões de preconceito e incompreensão.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

Nunca resolva trocar o tratamento prescrito pelo médico por conta própria. Sempre leia muito, pesquise e converse com o especialista que acompanha você ou seu filho ou filha antes de tomar qualquer decisão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL