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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Entenda a diferença entre bradicardia, taquicardia e arritmia

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

03/07/2021 04h00

No dia a dia do consultório, recebo algumas queixas como "meu coração está batendo muito rápido", "meu coração parece que vai sair pela boca", "parece que meu coração de repente para de bater" e "sinto umas pancadas no peito".

Afinal, qual o significado clínico destas estranhas sensações? Para compreender melhor estas ocorrências, vamos conceitualizar bradicardia, taquicardia e arritmia.

A bradicardia representa um contingente baixo de batimentos cardíacos, um número reduzido dos batimentos. Considerando uma pessoa adulta, a frequência cardíaca varia entre 50 a 90 batimentos por minuto. Logo, a bradicardia seria quando estes batimentos permanecem estacionados abaixo de 50 batimentos por minuto.

A taquicardia já seria a situação oposta: quando os batimentos cardíacos ultrapassam e permanecem acima de 90 por minuto.

O conceito de arritmia é mais abrangente, pois representa um descompasso do ritmo, uma desorganização dos batimentos.

Uma arritmia pode estar associada com a bradicardia ou com a taquicardia. Explicando melhor: uma pessoa pode estar apresentando número reduzido de batimentos cardíacos e estes estarem muito desorganizados também. Esta condição seria definida como uma bradiarritmia.

Por outro lado, uma pessoa que esteja apresentando aceleração dos batimentos e estes estejam desorganizados, seria portador de uma condição conhecida como taquiarritmia.

Para completar este cenário conceitual, muito importante entender que uma arritmia não ocorre somente nas pessoas com bradicardia ou taquicardia; ao contrário, muitas pessoas que apresentam batimentos em número normal podem apresentar períodos de descompasso. Seria, portanto, uma arritmia com frequência cardíaca normal.

Vamos analisar agora as possíveis causas para cada uma das situações e o que poderia ser feito para melhorar ou corrigir o problema.

No caso da bradicardia, as principais causas seriam idade avançada, doença de Chagas, infarto do coração, calcificação nas válvulas cardíacas, hipotireoidismo e uso inadequado de algumas medicações.

A taquicardia pode ser desencadeada principalmente por crises de ansiedade e pânico, doença de Chagas, hipertireoidismo, uso de drogas ilícitas e consumo exagerado de bebidas ricas em cafeína.

Uma arritmia cardíaca é algo um pouco mais complexo e multifatorial, podendo estar relacionada a fatores genéticos e constitucionais, além de todos os fatores da bradicardia e taquicardia.

Quando uma pessoa apresenta bradicardia de forma permanente, ela poderá não referir sintomas e conviver relativamente bem com esta condição. No entanto, quando existem sintomas como tonturas, turvação visual, sensação de fraqueza e limitação física para as atividades diárias, algumas medidas podem ser adotadas para corrigir este quadro.

Primeiramente, avaliar se algum medicamento que a pessoa esteja utilizando possa causar efeitos colaterais como a redução significativa dos batimentos. Na sequência, fazer exames de sangue e verificar algum distúrbio da tireoide.

Como procedimento mais invasivo, com intuito de reajustar os batimentos, a opção indicada seria implantar um marcapasso. Este dispositivo consegue manter os batimentos cardíacos num patamar estável, de forma permanente, sendo que, em intervalos de 10 anos, a bateria deste aparelho deve ser trocada.

A taquicardia pode causar muitos sintomas indesejáveis como desconforto no peito, falta de ar e tonturas. Para melhorar ou até mesmo inibir completamente esta ocorrência, começamos pela mudança do estilo de vida, evitando o uso de drogas ilícitas e o consumo exagerado de bebidas ricas em cafeína, como o próprio café e alguns tipos de energético.

Mas, em alguns casos, realmente será necessário fazer uma pesquisa mais aprofundada por meio de exames complementares como o ecocardiograma e o Holter, os quais podem indicar problemas na estrutura do coração e eventuais distúrbios do ritmo natural.

Dessa forma, existem vários medicamentos já disponíveis para uso nestes casos e que podem controlar e normalizar a frequência cardíaca. Em alguns casos mais extremos, pode ser implantado um dispositivo chamado desfibrilador, como recentemente vimos no caso do ator Rafael Cardoso e do jogador dinamarquês Eriksen.

Como destacado anteriormente, quando a pessoa apresenta uma arritmia cardíaca, seja ela associada com bradicardia, taquicardia ou mesmo com frequência cardíaca normal, o manuseio torna-se um pouco mais complexo.

Uma arritmia pode causar problemas para uma pessoa em decorrência dos sintomas desconfortáveis como dor no peito e falta de ar, o risco de sofrer uma queda acidental devido às tonturas e também a possibilidade de formação de trombos na circulação sanguínea.

Desta forma, uma abordagem preventiva exige mudanças no estilo de vida, nos hábitos alimentares e realização periódica de exames cardiológicos.

Em muitos casos, será necessário utilizar medicamentos específicos e, quando estes não controlarem estes focos de arritmia, será necessário algum procedimento mais invasivo, sendo o estudo eletrofisiológico com ablação a medida terapêutica mais empregada.

Ablação consiste em localizar o foco de arritmia e "queimar" este ponto, visando eliminar a origem do problema. Em casos mais extremos, pode ser necessário implantar algum dispositivo como marcapasso ou desfibrilador.

Considerando o risco de formação de trombos, principalmente naquelas arritmias de longa duração, temos de usar um medicamento anticoagulante, para diminuir a possibilidade de formar um coágulo dentro do coração ou mesmo um derrame cerebral.

Interessante destacar que a bradicardia pode ser um achado normal e que não requer nenhum tipo de tratamento, naquelas pessoas que praticam muito exercício físico ou nos atletas profissionais.

Jogadores de futebol, por exemplo, podem apresentar bradicardia mesmo durante o esforço físico. A taquicardia também pode acontecer de forma transitória e sem repercussão, em algumas situações do cotidiano como uma véspera de prova e quando nos assustamos com alguma coisa.

As arritmias cardíacas podem também fazer parte da rotina de uma pessoa, desde que haja um acompanhamento frequente e uso adequado das medicações.

Podemos então concluir que os conceitos de bradicardia, taquicardia e arritmia não são idênticos, ainda que haja alguns aspectos em comum.

Antes do uso de medicamentos, sempre é importante mudar o estilo de vida e os hábitos alimentares.

Quanto as modalidades terapêuticas, existem medicamentos, procedimentos como ablação e até o implante de dispositivos, para auxiliar em várias vertentes, como restaurar a frequência cardíaca normal ou controlar melhor as variações desta frequência, evitando, desta forma, repercussões clínicas indesejáveis.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL