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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Podemos "morrer" e "voltar", assim como o jogador de futebol Eriksen?

Hannah Mckay/Reuters
Imagem: Hannah Mckay/Reuters
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

19/06/2021 04h00

Recentemente, num voo de São Paulo ao Rio de Janeiro, tudo caminhava muito bem, o céu completamente azulado, sem nuvens, um silêncio convidativo dentro da aeronave. Ambiente propício para um breve repouso até o momento da aterrissagem no aeroporto Santos Dumont.

Uma cortina logo a frente das primeiras fileiras isolava o ambiente ocupado por membros da tripulação. Subitamente, um estrondo que aparentava ser de algo despencando no chão da aeronave, rompeu aquele silêncio agradável.

A cortina não me permitiu visualizar o que havia caído, mas, segundos depois, foi possível entender plenamente o que havia acontecido. Com a voz trêmula, a aeromoça anuncia que estávamos em uma emergência médica e precisaria de suporte de algum médico que estivesse no avião.

Juntamente com uma médica e uma enfermeira, dirigi-me ao local do estrondo. Havia um membro da tripulação caído no chão, com as extremidades frias, palidez cutânea e os sinais vitais muito frágeis. Seu rosto denunciava um estado de mal súbito, um "apagão " —olhos sem nenhuma reação.

Confesso que houve pânico e muita apreensão sobre o que poderíamos fazer para ajudar aquela pessoa, considerando especialmente aquelas condições e circunstâncias. Máscara de oxigênio e manobras para melhorar a circulação, incluindo algum esboço de massagem cardíaca, felizmente resultaram na restauração gradual da consciência completa daquela pessoa.

Após vivenciar este susto, já no dia seguinte, estava assistindo ao jogo entre Dinamarca e Finlândia, quando, subitamente, o jogador Eriksen inicia uma corrida até a lateral do gramado e desaba no chão, sem ostentar nenhum tipo de reação.

Pânico total, desespero, médicos sendo solicitados e manobras de ressuscitação sendo executadas. Felizmente houve reversão daquele estranho quadro e o jogador já estava em boas condições, recuperando-se bem no hospital algumas horas depois.

O membro da tripulação daquele voo e o jogador Eriksen "morreram e voltaram" após as manobras de ressuscitação. Como isto é possível, visto que existem casos similares de outras pessoas e atletas que não "voltam" mais e morrem?

Que loucura imaginar que uma pessoa pode "apagar" e voltar conversando, com relativa consciência e orientação!

O arquiteto do coração humano foi imensamente sábio em dotar este órgão de uma nobre particularidade —o automatismo elétrico. Nosso coração é composto por muitos tipos de células, dentre elas uma categoria especial de "células elétricas", cuja função é reger o ritmo natural dos nossos batimentos cardíacos.

Cada batimento do coração é produto de um impulso elétrico gerado por tais células e, desta forma, nosso coração bate sem parar, suportando algumas variações e instabilidades, ao longo de toda a vida.

Este automatismo é tão veemente que, mesmo nas pessoas em estado vegetativo (quando a função cerebral é mínima) ou com morte cerebral confirmada, o coração pode continuar batendo, ainda que de forma desorganizada e débil.

Este automatismo demonstra que muitos órgãos dependem do coração para sobreviver, mas o coração pode viver de forma relativamente independente e automática. O grande arquiteto do universo emprestou sua maestria ao funcionamento automático do coração.

Eriksen recebe atendimento médico em campo após sofrer síncope - Martin Meissner - Pool/Getty Images - Martin Meissner - Pool/Getty Images
Eriksen recebe atendimento médico em campo após sofrer síncope
Imagem: Martin Meissner - Pool/Getty Images

Não seria possível "morrer" e ser ressuscitado, caso o coração humano fosse um órgão completamente dependente de outras conexões. Caso houvesse esta dependência, o coração humano seria como uma lâmpada que apaga imediatamente diante do desligamento de um interruptor ou do rompimento de um fio elétrico.

Quando Deus arquitetou o coração humano, Ele pensou em tudo, inclusive nesta necessidade de automatismo elétrico para garantir a sobrevida de uma pessoa após um "apagão".

No entanto, faltaria alguma técnica humana para abordar diretamente esta pessoa vítima do "apagão". E a evolução da medicina permitiu não somente criar estratégias para recuperar os batimentos cardíacos, como também desenvolver equipamentos que pudessem ser implantados no coração e, desta forma, operar alguns estímulos elétricos em caso de descontrole do ritmo cardíaco ou mediante a iminência de um "apagão".

Voltando ao caso do tripulante do voo e do jogador Eriksen, pode-se depreender que ambos foram vítimas de um súbito e intenso descontrole do ritmo cardíaco, seguido de ausência temporária do fluxo sanguíneo efetivo ao cérebro e consequente "apagão".

E por que ocorre este descontrole súbito do ritmo cardíaco? São muitas causas, mas podemos destacar algumas malformações na estrutura do coração, propensão acentuada para arritmias e alguns fatores externos, como uso de drogas ilícitas.

Seja qual for a causa, o coração funciona como um motor que pode falhar por alguns segundos ou minutos e, mesmo assim, reajustar-se de forma espontânea ou com suporte de manobras como a massagem cardíaca.

Não seria nenhum exagero afirmar que o tripulante do voo e o jogador Eriksen foram dois sobreviventes, pessoas afortunadas cujo coração conseguiu utilizar seus recursos de automatismo e também se beneficiar da implementação imediata das manobras de ressuscitação.

Aliás, este imediatismo das manobras de ressuscitação foi mais do que essencial na sobrevida destas duas pessoas, visto que tanto o coração como o cérebro toleram pouquíssimo tempo sem fluxo sanguíneo e oxigenação.

Exatamente este curto tempo de "apagão", ainda passível de reversão, que representa a "morte" temporária de uma pessoa.

O maior desafio seria identificar prontamente o que está acontecendo e já iniciar as manobras de ressuscitação. São 5-10 minutos que determinam sobreviver ou sucumbir. São 5-10 minutos de uma reserva de combustível elétrico ainda ativo no coração, que ainda permite "religar" o motor se devidamente estimulado.

Além do automatismo elétrico próprio do coração e da possibilidade de iniciar manobras de ressuscitação, ainda existe o recurso de implantar no coração, por meio de um procedimento cirúrgico, um aparelho sofisticado denominado desfibrilador, o qual garante, de forma definitiva, a supervisão e manutenção do ritmo cardíaco adequado.

Em outras palavras, este aparelho é tão eficiente que, diante da iminência de um "apagão", ele assume prontamente o comando do nosso coração, revertendo por meio de choques o ritmo desorganizado e anômalo. Inegavelmente, este recurso reduz a ocorrência de morte súbita.

Mérito a Deus que arquitetou nosso coração com automatismo elétrico. Mérito aos médicos por desenvolver protocolos de ressuscitação com atendimento imediato.

Sorte daquelas pessoas que conseguem ser atendidas prontamente como o tripulante do voo e o jogador Eriksen. Assim, não se assustem! Podemos "morrer" e ressuscitar, aparentemente como se nada tivesse ocorrido.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL