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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fumar maconha e uso medicinal de maconha são questões muito diferentes

Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL
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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

15/05/2021 04h00

Tendo em vista a legalização do uso de maconha em alguns países e alguns estudos apontando para possíveis benefícios do uso medicinal deste produto, muitas reflexões e ponderações são fundamentais e deveriam ocupar destaque no cenário atual, principalmente em tempos de pandemia.

Não somente pelas considerações existentes acerca do possível uso da maconha no arsenal profilático e terapêutico contra a covid-19, mas também pelo fato de nós, seres humanos, não termos a mínima condição de gerar a nós mesmos, mais problemas de natureza social e de saúde.

Em termos de população mundial, sabe-se que os jovens muito precocemente iniciam o consumo da maconha, geralmente a partir dos 12 anos de idade, como revelam os principais estudos epidemiológicos.

Obviamente que este uso se refere a finalidades puramente recreativas, distantes de qualquer contexto ou entendimento acerca da possível aplicabilidade medicinal.

Este hábito, que começa a se consolidar tão precocemente, estende-se ao longo de muitos anos, sem a mínima percepção das fronteiras cronológicas, como idade adulta e a fase de envelhecimento. As pessoas tornam-se completamente dependentes deste vício, com gritante impacto na estrutura familiar, no ambiente social e na produtividade individual.

Este terrível vício, revestido pela falsa carapuça de um cigarro "elegante", um cigarro que supostamente socializaria melhor as pessoas, encarrega-se de solapar a saúde humana de várias formas, sem poupar órgãos e sistemas de nosso corpo.

Um importante estudo realizado no Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos demonstrou com maestria os seguintes efeitos da maconha na saúde humana:

Efeitos do uso ocasional ou uso por tempo curto

  • alterações da memória, prejudicando o aprendizado e a capacidade de reter informações
  • alterações da coordenação motora
  • maior risco para transtornos comportamentais, comprometendo as relações e o convívio social

Efeitos do uso por longo prazo ou uso "pesado"

  • alterações no desenvolvimento neurológico e intelectual
  • maior suscetibilidade ao abuso de álcool e drogas ilícitas em geral
  • maior predisposição para patologias mentais como psicoses e esquizofrenia
  • maior associação com doenças cardiovasculares como infarto do coração e AVC
  • maior associação com surgimento de câncer pulmonar e câncer digestivo

Fumar maconha, seja qual for o nível de consumo e independentemente da faixa etária, pode ser um hábito contextualizado com a triste realidade, que é ostentada pelas complicações descritas acima.

Entretanto, muitos poderão contrapor os argumentos apresentados, alegando que a maconha, se realmente fosse motivo de tanta controvérsia, não teria sido legalizada em outros países e também cogitada na terapêutica de alguns agravos a saúde.

Na verdade, agora começamos uma discussão sob um outro ponto de vista. Tudo que já foi pontuado segue firme e verdadeiro, não estaremos em nenhum momento relegando tantos efeitos colaterais nocivos a um plano de importância inferior. Longe disso.

A ideia é trazer algumas informações, para um entendimento mais consistente e regido pelo bom senso, acerca de algumas possíveis implicações terapêuticas da maconha. Um eventual uso terapêutico da maconha jamais poderá ser entendido como um convite para o consumo ilícito da mesma.

A maconha, por ser derivada de uma planta conhecida como Cannabis Sativa, passou a ser motivo de estudos quanto a suas propriedades como um possível fármaco ou medicamento.

Disso resultou a percepção, ainda que muito restrita a estudos em laboratório e experimentais, de que as flores e folhas da planta poderiam beneficiar o ser humano, por meio de propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes.

A partir destas análises, que indubitavelmente merecem maior aprofundamento quanto ao possível uso medicinal em humanos, surgiram e vêm surgindo, até de forma natural, questionamentos sobre o porquê de não usar a maconha para auxiliar no tratamento dos principais agravos a saúde, como o câncer, a insuficiência cardíaca, epilepsia, demência e, mais recentemente, a infecção pela covid-19.

O motivo de não estar plenamente autorizado o uso medicinal da maconha não depende de ocorrer ou não legalização da mesma, como uma droga originalmente ilícita, que passaria a ser considerada como lícita. Não podemos misturar os conceitos de um vício e seus malefícios com um possível uso medicinal extremamente controlado e supervisionado.

O uso medicinal da maconha deveria caminhar a passos lentos, curtos e controlados, para que o resultado e as conclusões, caso sejam efetivamente favoráveis, possam ser bem fundamentados.

Trata-se de uma questão tão complexa e provida de imensurável responsabilidade, que já existem estudos em humanos, mostrando que a dose de maconha a ser utilizada para fins medicinais não está bem estabelecida e pode variar consideravelmente em função da nossa taxa individual de absorção intestinal e da quantidade de tecido adiposo em nosso corpo.

Portanto, não devemos ter pressa, não é hora de acarretar mais problemas a nossa saúde. Por outro lado, precisamos continuar a investigar e buscar a consistência e segurança necessárias para este possível uso medicinal da maconha.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL