PUBLICIDADE

Topo

Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que a alegria de Paulo Gustavo não resistiu à covid-19?

Divulgação
Imagem: Divulgação
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

08/05/2021 04h00

Quando temos um familiar ou amigo em estado grave, internado em uma unidade de terapia intensiva, vivenciamos dias difíceis, de muita aflição, apreensão, insegurança. Vivemos algumas vezes um verdadeiro inferno de notícias tristes, prognóstico difícil e o constante medo daquele telefonema dizendo que a morte aconteceu.

O corpo humano segue seu ritmo fisiológico e metabólico e, quando acometido por uma patologia grave, cada órgão tem seu padrão próprio de comportamento. Alguns órgãos são mais fortes e resistentes e conseguem "se reinventar" diante dos ataques do fator de injúria —vírus, bactérias, câncer, hemorragias.

O fígado, por exemplo, se notabiliza por uma extraordinária capacidade de regeneração e uma recuperação mais rápida após um processo inflamatório. Por outro lado, alguns órgãos como os rins e o cérebro sentem verdadeiramente o baque de um processo inflamatório mais acentuado; a pessoa demora para acordar, precisa ficar muito tempo sedada e muitas sessões de hemodiálise são necessárias para eliminar as toxinas do sangue.

No meio deste campo de batalha, estão os pulmões e o coração. O coração batendo desesperadamente para distribuir o fluxo sanguíneo a todo o corpo, sendo alvo de muitas instabilidades decorrentes dos percalços que atingem os outros órgãos. Os pulmões, por sua vez, tentando oxigenar o sangue e manter esta função vital a todo custo.

Mas é difícil suportar tanta pancada por tanto tempo. E o coronavírus, quando resolve bater, bate pesado, dando poucas chances para seu adversário. A luta pode acabar rapidamente, em poucos "rounds" ou, se o adversário tiver mais forças e mais recursos, a luta pode se estender por mais tempo, mas sem a segurança de um resultado necessariamente vitorioso.

As pessoas, quando estão em estado grave em uma UTI, lutam incansavelmente para viver e sobreviver. Querem continuar com seus familiares, conhecer os netos, realizar sonhos, concluir projetos e ver mais coisas que ainda estejam para acontecer na história da humanidade. Mas nem sempre esta vontade é correspondida.

E aí poderemos especular e considerar diversas hipóteses, tudo de acordo com a crença de cada um, com os sentimentos de cada um e com a sensibilidade de cada um.

Alguns dirão que estava escrito já o que iria acontecer, outros diriam que todo aquele sofrimento seria um castigo, outros ainda poderiam considerar que o problema é a doença em si e ponto final. Qual seria a resposta correta?

Muito difícil precisar e "bater o martelo". O que sabemos é que existe uma batalha entre uma pessoa que não gostaria de estar ali, em meio a fios, drenos, aparelhos que apitam sem parar, monitores com traçados coloridos, e uma determinada doença que exerce inexoravelmente seus efeitos contra a saúde humana.

Neste contexto, a infecção pela covid-19 torna-se emblemática, sobretudo nas formas mais graves e resistentes da doença. Não escolhe idade, gênero, condição socioeconômica e se fundamenta em uma avassaladora resposta inflamatória diretamente nos pulmões e indiretamente atingindo outros órgãos.

A luta do ator e humorista Paulo Gustavo pela vida ilustrou a condição de incontáveis brasileiros e brasileiras, alguns mais fortes e resistentes e com mais recursos, e outros, menos afortunados, com maior debilidade física e poucos recursos disponíveis.

Sendo um ou outro, a derrota pode ser o desfecho, quando a intensidade da infecção pela covid-19 desmembra-se em diversas complicações, as chamadas complicações das complicações. Surge uma verdadeira cascata incontrolável de eventos, uma complicação orgânica que desencadeia outra complicação e esta, por sua vez, geram complicações em outro local do corpo.

Paulo Gustavo, tal como muitas outras pessoas, não jogou a toalha nos primeiros "rounds" desta batalha contra a covid-19. Ele sofreu o primeiro ataque quando seus pulmões inflamaram e sua oxigenação caiu. Partiu-se para intubação imediata, para artificializar a oferta de oxigênio ao corpo e dar o descanso devido aos pulmões.

Esta etapa começou a se estender ao longo dos dias e uma invasão de bactérias associou-se ao coronavírus, dentro dos pulmões. O organismo de Paulo Gustavo começou a recrutar mais elementos de defesa, já que o ataque passou a ser duplo —coronavírus e bactérias.

Caso Paulo Gustavo estivesse nos palcos, ele teria de se desdobrar e fazer as pessoas sorrirem com mais intensidade, pois mais tristezas estavam à espreita. Paulo Gustavo venceu os primeiros "rounds" da luta, alguns tímidos bramidos de comemoração já eram esboçados.

No entanto, o inimigo microscópico desferiu um golpe preciso e o processo inflamatório dos pulmões se agravou. As defesas estavam sendo minadas, a munição estava acabando frente a um ataque adicional do inimigo.

Um novo aliado surgiu naquele momento, mais precisamente uma máquina que poderia auxiliar a função dos pulmões —a ECMO—, trabalhando como um pulmão artificial, para oxigenar e manter todos os órgãos do corpo ainda vivos.

Com o advento deste equipamento, Paulo Gustavo vence os "rounds" seguintes e a torcida novamente se anima, e com razão. Novas perspectivas de esperança surgem. Conseguir ter acesso a um equipamento custoso e eficiente era inegavelmente um privilégio e a oportunidade de engrenar definitivamente rumo a vitória.

Paulo Gustavo e Thales Bretas, seu marido, ao lado dos filhos Romeo e Gael - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Como este equipamento tem um tempo limitado de utilização, não podendo permanecer por prazo indeterminado conectado ao corpo humano, Paulo Gustavo começa a sangrar. Alguns episódios de hemorragia são decorrentes do próprio equipamento que estava auxiliando a função dos pulmões.

O que fazer agora? Os pulmões não estavam prontos ainda para trabalhar sem o auxílio das máquinas, o quadro ainda grave, hemorragias acontecendo. Sem outra opção, várias transfusões de sangue passaram a ditar o ritmo das ações.

Sangrava e transfundia, sangrava e transfundia. Esta era a medida imprescindível naquele momento da luta. Contudo, vale ressaltar que a necessidade de transfundir sangue muitas vezes agrava o processo inflamatório sistêmico.

Alguns dias se passaram e novo alento, Paulo Gustavo venceu mais alguns "rounds" sem que seu inimigo o atingisse de forma intensa. O sangramento também tinha cessado. A luta caminhava para a vitória a favor do ator. O coronavírus enfim acusava sinais de cansaço.

Os medicamentos sedativos foram retirados e Paulo Gustavo teve lapsos de contato com as pessoas ao seu redor. Em tese, um sinal muito positivo, ainda que os mais céticos pudessem dizer que seria a "melhora da morte". Quem poderá dizer que sim ou que não?

Quando se enfrenta um adversário ainda desconhecido, este pode desferir algum golpe inesperado e vencer a luta. E isto tem acontecido com muitas pessoas, como no caso do Paulo Gustavo. Seus pulmões, fragilizados pela intensidade e quantidade de golpes recebidos, seja pela inflamação provocada pelo coronavírus, seja pelos efeitos colaterais dos equipamentos, começaram a romper em alguns pontos, ocorrendo extravasamento de ar para locais como os vasos sanguíneos.

Denominamos esta ocorrência de fístula e, pelo fato deste ar estar sob a forma de bolhas com capacidade obstrutiva como se fosse um trombo ou êmbolo, o quadro geral passou a ser de embolia aérea. Nesta etapa, a vitória do inimigo estava consumada.

O fluxo de sangue para os órgãos não mais era mais efetivo, pois bolhas de ar estavam entupindo a circulação. Um golpe fatal, Paulo Gustavo foi à lona e não se levantou mais.

Quantos brasileiros e brasileiras já passaram e estão passando por isso. Os números da pandemia refletem brutalmente isso.

Quantos brasileiros e brasileiras que ostentavam alegria e sorrisos na esperança de viver mais, não conseguiram ou não estão conseguindo vencer estas bolhas que interrompem a vida.

Caso o componente alegria fosse suficiente nesta batalha, certamente Paulo Gustavo seria protagonista da vitória. Porém, a alegria de Paulo Gustavo e de tantas outras pessoas não foi e não tem sido párea para este enfrentamento contra um inimigo que ainda golpeia de forma voraz.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL