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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Façanhas da covid-19 não param: Agnaldo Timóteo e Paulo Gustavo explicam

Murilo Alvesso/Divulgação
Imagem: Murilo Alvesso/Divulgação
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

10/04/2021 04h00

Confesso que quando surgiu este maldito vírus, que foi denominado de "novo", parecia ser um simples adjetivo. Com o passar do tempo, percebi que não era nem uma simples composição de palavras nem muito menos um exagero. O coronavírus realmente é novo em tudo, principalmente em seu comportamento extremamente imprevisível e em tantos desmembramentos sem lógica.

No início da pandemia era uma doença que parecia ter preferência por pessoas com idade avançada e que dificilmente acometeria os praticantes regulares de atividade física. Nos dias atuais, temos visto adultos jovens, adolescentes e até bebês morrendo. E, além disso tudo, esportistas como fisiculturistas estão sucumbindo a voracidade desta virose.

Podemos padronizar ou uniformizar algo em relação a esta virose? Muito difícil até o presente momento. E não faltam relatos e casos para ilustrar que o entendimento médico acerca da covid-19 assemelha-se a uma caminhada em areia movediça —a gente caminha, cai, levanta, tropeça, tenta caminhar de novo, os pés afundam...

Muitas vezes nos surpreendemos com casos de pessoas contaminadas que estão evoluindo bem até certo momento, de repente, o quadro clínico muda bruscamente e tudo começa a caminhar para um agravamento significativo, podendo resultar em falência múltipla de órgãos.

Na verdade, podemos inferir que nosso organismo "luta" com todas as forças, em conjunto com as medidas de suporte implementadas pelos médicos, sendo que poderemos ganhar ou perder esta árdua batalha contra a covid-19.

Os últimos dias do mês de março pareciam apontar para um horizonte promissor, visto que o cantor Agnaldo Timóteo e o ator Paulo Gustavo davam sinais de nítida melhora, com perspectivas de estabilização completa da inflamação e infecção causadas pelo coronavírus.

No caso de Agnaldo Timóteo, temos o registro da entrevista de seu sobrinho Timotinho naqueles últimos dias de março, afirmando: "Ele está bem, tomou café da manhã e almoçou há pouco. Ele está melhorando, claro que tem complicações por causa da idade, mais o AVC que ele teve tempos atrás. Mas está tudo sob controle, nem está intubado, nem em estado grave." Além deste importante registro, Agnaldo Timóteo foi vacinado com as duas doses necessárias.

Como todos já sabemos, Agnaldo Timóteo faleceu recentemente, mesmo com todo este histórico de vacinação e de um período favorável em sua evolução clínica. Diante disto, começarmos a debater o porquê então desta mudança, o porquê deste agravamento progressivo.

Quem já teve algum parente internado em terapia intensiva sabe o quão difícil é receber a notícia de uma melhora do quadro clínico e, dias depois, ser surpreendido com a dura notícia do falecimento de seu ente querido.

Podemos considerar algumas hipóteses para a mudança de rumo na evolução clínica de Agnaldo Timóteo. Primeiramente, a idade mais avançada e o histórico de AVC podem ser fatores que dificultam uma recuperação mais rápida, mas discute-se muito se estes fatores seriam suficientes para tal desfecho desfavorável.

Muitos estudos demonstram que algumas pessoas podem ter certa propensão genética, talvez uma maior fragilidade orgânica diante dos insultos causados pela ação inflamatória do coronavírus.

Também devemos destacar o estilo de vida de uma pessoa ao longo de décadas —se foi fumante, como era normalmente seu padrão de alimentação, se tinha o hábito de praticar atividade física e como lidava com a saga diária do estresse. Até fatores climáticos e a influência da poluição atmosférica podem ser determinantes em ter mais ou menos saúde ao longo da vida.

O fato é que, no momento agudo, como no caso do ataque inflamatório do coronavirus, precisamos ter um "estoque" considerável de fatores de defesa e imunidade; não basta apenas aparentar ser saudável ou mesmo já ter sido vacinado.

O ator Paulo Gustavo, por sua vez, vem enfrentando uma áspera batalha e vem resistindo bravamente ao ataque inflamatório do coronavírus, principalmente em relação os pulmões. Naqueles últimos dias de março, Thales, marido de Paulo Gustavo, declarou que "os pulmões estão respondendo bem ao respirador".

O que sabemos, nos dias atuais, é que a condição pulmonar de Paulo Gustavo piorou e um sistema artificial chamado ECMO foi instalado no corpo dele, para funcionar como um pulmão auxiliar.

Quando se instala um aparelho artificial como o ECMO dois fatores são essenciais. Primeiramente devemos entender que existe um prazo razoável para manutenção deste sistema artificial acoplado ao corpo, geralmente 15 a 20 dias.

Em segundo lugar, temos de considerar que, quando nosso sangue circula dentro deste sistema artificial, pode ocorrer formação de coágulos, o que exige a utilização de medicamentos para "afinar" o sangue —os anticoagulantes. O uso destes medicamentos pode causar hemorragias e necessidade de transfusões de sangue. Paulo Gustavo está necessitando de transfusões de sangue devido às hemorragias inerentes ao sistema pulmonar artificial.

A medicina ainda não tem controle sobre todas as façanhas do coronavírus. O que sabemos categoricamente é que ele pode causar uma tempestade inflamatória em órgãos vitais, como no caso dos pulmões, e ocasionar necessidade de intubação para melhor oxigenação.

A partir do momento da intubação, não sabemos o que virá pela frente. É quase que completamente imprevisível, pois são muitos os fatores que podem influenciar esta evolução clínica.

Há cerca de 15 dias, Agnaldo Timóteo e Paulo Gustavo estavam melhorando do quadro inflamatório da covid-19. Há cerca de 1 semana, Agnaldo faleceu e Paulo Gustavo apresentou piora clínica, necessitando de um sistema artificial pulmonar e transfusões de sangue.

As façanhas da covid-19 continuam surpreendendo, precisamos continuar atentos e vigilantes, mantendo todos os cuidados. Contra as façanhas da covid-19, precisamos impor responsabilidade. Que assim seja para que possamos superar tudo isso e, quem sabe um dia, conseguir compreender todas as facetas e façanhas de um vírus que mudou a história da humanidade.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL