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Edmo Atique Gabriel

Não vivemos sem oxigênio e morremos pelo oxigênio

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Imagem: Getty Images
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

23/01/2021 04h00

Nunca se discutiu tanto sobre respiração, pulmões e oxigênio como nestes últimos 10 meses de pandemia da covid-19. Mérito total ao oxigênio, visto que sem ele não vivemos. Em nosso corpo, todos os órgãos necessitam de fluxo sanguíneo ativo para transportar os nutrientes e o oxigênio.

Os glóbulos vermelhos do nosso sangue possuem um componente denominado hemoglobina, uma proteína que se liga ao oxigênio, executando a função de oxigenação dos nossos tecidos.

Nas últimas semanas, tendo em vista a situação catastrófica e dramática ocorrida em Manaus, vimos que o ser humano saudável precisa de oxigênio e o ser humano doente, mais ainda.

Dessa forma, gostaria de apresentar alguns cenários do cotidiano, que refletem risco considerável de vida no que tange as nossas demandas de oxigênio.

Cenário 1

Carros em túnel - Moacyr Lopes Junior/Folhapress - Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Imagem: Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Você está dentro de um túnel e começa a se formar um engarrafamento de carros, todos com motor ligado, liberando aquela fumaça tóxica. O acúmulo deste conteúdo tóxico no ar num ambiente fechado como um túnel acarreta bloqueio no transporte de oxigênio para nossos órgãos, o que pode levar a morte.

Cenário 2

Você está dentro de uma casa e, por algum motivo, começa um incêndio de grandes proporções. Quem estiver dentro da casa, estará inevitavelmente inalando relevante quantidade de toxinas, tendo como consequências queimaduras de nossas vias aéreas internas como os pulmões e intensa intoxicação. O tempo prolongado de exposição às chamas deste incêndio pode levar a morte.

Cenário 3

Um time de futebol do Brasil, que normalmente treina em cidades sem altitude expressiva, viaja para uma partida a ser realizada em cidades localizadas no "topo do mundo", como algumas na Bolívia, no Peru e no Equador. Nestas cidades, a quantidade de oxigênio no ar é significativamente menor, o que exigiria adaptação e condicionamento por parte dos atletas.

Durante o esforço físico da partida de futebol, principalmente na segunda etapa da partida, os jogadores brasileiros claramente "morrem" em campo, não conseguem correr adequadamente, apresentam falhas inimagináveis e muitas vezes recorrem ao balão de oxigênio localizado na beira do gramado.

Cenário 4

Máscaras de oxigênio em avião - Camila Machado/AFP - Camila Machado/AFP
Imagem: Camila Machado/AFP

Você está dentro de um avião, com total controle das pressões e dos níveis de oxigênio dentro da aeronave. Você não sentirá nada até que, por qualquer motivo, este avião, que está numa altitude de baixa oxigenação externa, sofre uma pane e ocorre despressurização dentro da aeronave. Qual a primeira coisa que deveria acontecer neste momento? Uma máscara de oxigênio cair do teto do avião para você conseguir respirar e manter sua consciência preservada. Caso contrário, você irá desfalecer e perder sua consciência.

Cenário 5

Você está numa piscina e resolve "brincar" de afundar e segurar a respiração. Isto jamais deveria ser feito devido ao risco de perder o controle da suposta brincadeira e simplesmente morrer por não conseguir respirar. O mesmo vale para pessoas que se aventuram a nadar na parte mais profunda de mar e rio. O ser humano não tem a mesma capacidade de um peixe, para se manter vivo e ativo, com mecanismos alternativos de respiração, ainda que completamente submerso.

Cenário 6

Uma criança engasga, pois colocou uma moeda na boca ou no nariz e, subitamente, começou a ficar com a pele cianótica (coloração azulada), sem fôlego e não consegue respirar adequadamente. De forma análoga, uma pessoa com idade avançada e debilitada engasga com um pedaço de pão ou carne, ocorrendo o que chamamos de broncoaspiração —entrada de um "corpo estranho" pelas vias aéreas, obstruindo o fluxo de ar e de oxigênio. São situações dramáticas numa criança e na pessoa mais idosa, com altíssimo risco de morte.

Cenário 7

Graffiti na Alemanha homenageia George Floyd, que morreu em ação policial após dizer 'Não consigo respirar' - Abdulhamid Hosbas/Anadolu Agency via Getty Images - Abdulhamid Hosbas/Anadolu Agency via Getty Images
Imagem: Abdulhamid Hosbas/Anadolu Agency via Getty Images

Estados Unidos, maio de 2020. Um homem negro chamado George Floyd tem seu pescoço comprimido brutalmente por policiais e sua maior expressão de desespero foi "I can't breathe" (Eu não consigo respirar). A compressão do pescoço causa compressão de parte de nossas vias aéreas, interrompendo o fluxo de ar durante um ciclo respiratório.

Cenário 8

Homem carrega cilindro de oxigênio a hospital de Manaus - Carlos Madeiro/UOL - Carlos Madeiro/UOL
Imagem: Carlos Madeiro/UOL

Manaus, janeiro de 2021. Segunda onda da pandemia de covid-19, com grande repercussão a ponto de faltar cilindro de oxigênio para as pessoas com sinais clínicos graves como falta de fôlego e oxigenação muito baixa no sangue. Resultado: morte por uma verdadeira angústia respiratória.

Diante de todas estas evidências, não há dúvidas quanto ao papel do oxigênio para vitalidade dos nossos órgãos e o quanto nós, seres humanos, somos dependentes dele para viver de forma longeva.

Todos nós temos planos na vida e, para que estes se concretizem, precisamos de tempo, ou seja, viver bastante em meio a novas tendências do mundo. No entanto, cada dia de nossa vida é um dia a menos em nossa contagem e, ainda que pareça estranho e paradoxal, um dos fatores que determina a finalização de nosso ciclo vital é exatamente o oxigênio.

Existe um processo químico conhecido como oxidação, que funciona como uma ferrugem, provocando a degeneração de nossas estruturas orgânicas. Pode-se dizer que, ao longo do nosso tempo de vida, vamos oxidando gradativamente, enferrujando literalmente, sendo que todo este processo degenerativo é mediado, em sua maior parte, pelo oxigênio.

Hábitos como tabagismo, etilismo e alimentação desregrada contribuem consideravelmente para acentuar este processo oxidativo dependente do oxigênio.

Dessa forma, chegamos a uma conclusão interessante: o oxigênio promove e garante a vida, mas, em circunstâncias adversas e na dependência de nossos hábitos, ele bioquimicamente vai nos aniquilando.

A deficiência de oxigênio no sangue pode determinar nossa morte num túnel com engarrafamento, num incêndio, na despressurização de uma aeronave. A deficiência de oxigênio no sangue matou George Floyd e muitas pessoas em Manaus.

Pela ação do oxigênio, ao longo do tempo, vamos degenerando e morrendo. Eis o belo contraste de um elemento químico com tantos atributos. Vale a reflexão!

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.