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Edmo Atique Gabriel

Por que o coração de Maradona parou de bater?

Marcos Brindicci/Getty Images
Imagem: Marcos Brindicci/Getty Images
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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

28/11/2020 04h00

Nossa vida é um ciclo. Nascemos, crescemos, fazemos escolhas, arcamos com as consequências de nossas escolhas, envelhecemos e morremos. Trata-se de um ciclo que nem sempre é plenamente vivido, muitas vezes pode ser interrompido por doenças e acidentes.

Desde o ventre materno, quando começamos a adquirir forma e a vivenciar as primeiras experiências, convivemos com esta linha tênue entre a vida e a morte. Do ponto de vista biológico, a morte é confirmada pela ausência de atividade cerebral; no entanto, a concepção da vida está arraigada nos batimentos cardíacos e na longevidade dos mesmos, ainda que, de forma consciente ou inconsciente, queiramos negar que um dia irão cessar definitivamente.

Focando especificamente no coração, podemos afirmar que a cessação dos batimentos e a consequente parada do coração representam o último ato da vida, mas não a causa da morte. Isto pode gerar e na verdade tem gerado confusão em muitas interpretações e ocorrências, como no caso do jogador argentino Diego Maradona.

Maradona não morreu de parada cardíaca. Houve um processo patológico que de forma progressiva vinha acometendo o jogador e que teve como desfecho um infarto agudo do miocárdio.

Dessa forma, podemos organizar o raciocínio da seguinte forma: Maradona morreu em decorrência de um infarto agudo do coração e este infarto foi a causa determinante da parada definitiva dos batimentos cardíacos.

Uma questão intrigante vem à tona. Por que há pessoas que apresentam infarto do coração e sobrevivem? E por que há casos de infarto fulminante do coração, como no caso de Maradona, quando a pessoa morre dormindo ou simplesmente apresenta um mal-estar e logo morre, sem que haja tempo suficiente para qualquer tentativa de socorro?

Explorando melhor o caso de Maradona, encontramos uma gama respeitável de fatores de risco que certamente foram decisivos na progressão da doença cardíaca que o vitimou. Obesidade, tabagismo, etilismo, alimentação desregrada, uso de drogas ilícitas e estresse emocional —tudo isto em uma única pessoa. O que esperar? Exatamente o que acabou acontecendo, um infarto fulminante, algo tão voraz e ao mesmo tempo silencioso que não deu tempo nem de reagir ou de socorrer.

Todos estes fatores de risco que cumulativamente deterioraram a saúde de Maradona desafiaram os limites do coração humano e venceram a batalha. Uma pessoa com obesidade mórbida apresenta muitas alterações estruturais e funcionais no coração, como hipertrofia do miocárdio, dilatação das cavidades, insuficiência das valvas, arritmias e entupimento das artérias.

As pessoas obesas são mais propensas ao desenvolvimento ou agravamento da hipertensão arterial e, como consequência dos picos de pressão arterial, temos maior ocorrência de acidente vascular cerebral com ou sem sangramento associado. Não podemos esquecer que, nos últimos dias, Maradona apresentou quadro de hematoma (sangramento) cerebral, necessitando de uma cirurgia para drenagem deste conteúdo.

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas e o tabagismo representam fatores que promovem um extenso processo inflamatório nas artérias do corpo todo, particularmente nas artérias do coração, determinando obstruções que favorecem o infarto agudo.

Não existe quantidade segura para o tabagismo e todas as modalidades existentes de cigarro são nocivas ao coração e saúde como um todo. A despeito dos benefícios de algumas bebidas alcoólicas, como o vinho e a cerveja, o consumo exagerado de qualquer bebida alcoólica provoca arritmias cardíacas e risco aumentado para insuficiência cardíaca.

Um jogador de futebol profissional necessita de um controle rigoroso de seus hábitos alimentares, para manutenção do peso e principalmente das condições físicas necessárias para um bom desempenho esportivo.

Maradona nitidamente evoluiu, em termos de estrutura física, para uma condição de desfiguração e obesidade mórbida. Obviamente que seria difícil para ele, após encerrar suas atividades profissionais como jogador de futebol, manter a mesma forma física; no entanto, o impacto negativo de hábitos alimentares errados foi gritante em sua desfiguração física.

Maradona incorporava em suas atitudes, dentro e fora de campo, aquele espírito aguerrido, com excesso de tensão, comoção e inquietude. Algumas vezes este nível tão acentuado de estresse emocional faz mal ao coração, pois favorece picos de pressão arterial, palpitações e os espasmos (contrações intermitentes) das artérias do coração.

Este estresse emocional pode até matar em decorrência de um infarto do coração. A personalidade de Maradona por si só conduzia suas ações a este estado extremo de emoção e estresse que, cumulativamente, certamente acometeu a vitalidade de seu coração.

Por fim, as drogas. O vício em drogas foi indubitavelmente o fator que mais acarretou problemas sociais e de saúde na vida de Maradona. O efeito das drogas na função cardíaca é avassalador —tudo o que se imagina pode acontecer— arritmias, taquicardia (aumento dos batimentos), bradicardia (redução dos batimentos) , espasmos das artérias do coração, infecção das valvas cardíacas, insuficiência cardíaca, infarto agudo e morte súbita.

Este cenário que amedronta qualquer pessoa de bom senso, quando associado a obesidade mórbida, tabagismo, etilismo, alimentação desregrada e estresse, abre um verdadeiro precipício no que se refere a longevidade e expectativa de vida.

O fim estava próximo, era questão de tempo. O mesmo tempo que seria fulminante tanto quanto o infarto que provocou o último fôlego de Maradona.

Voltando a questão central: por que o coração de Maradona parou de bater? Não houve apenas um culpado, mas uma pluralidade de fatores.

O mais grave no falecimento de Maradona é notar o poder que nossas escolhas na vida exercem em nossa saúde, sobretudo na saúde cardiovascular.

Maradona não morreu de parada cardíaca, Maradona morreu de um infarto fulminante, Maradona morreu das escolhas que fez na vida. Vale a reflexão diante do último compasso deste melancólico e trágico tango!

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.