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Edmo Atique Gabriel

O estresse do final de 2020 é tão atípico como o próprio ano de 2020

Aaron Chown - WPA Pool/Getty Images
Imagem: Aaron Chown - WPA Pool/Getty Images
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

21/11/2020 04h00

Vamos imaginar que estivéssemos em 1918, ano que entrou para história como sendo o período de uma das mais marcantes pandemias que assolou a humanidade: a fatídica gripe espanhola.

O mundo ainda era voltado para as atividades rurais, as distâncias entre as pessoas ainda eram inimagináveis, pois não havia tecnologia de comunicação e, sobretudo, as condições de higiene e infraestrutura ainda eram demasiadamente precárias para combater uma infecção tão letal.

Para completar o cenário catastrófico, o mundo estava enfrentando uma guerra de âmbito mundial, guerra de anseios e disputas por poder e territórios.

Os últimos meses de 1918 refletiam que rescaldos de muitas feridas abertas: crise econômica, desordem social, movimentos emigratórios pelo mundo, altíssimas taxas de mortalidade pela guerra e pela pandemia da gripe espanhola e muitos sonhos frustrados. A discussão acerca do estresse seria muito romântica para aquela época, talvez até demasiadamente filosófica. O caos dos últimos meses de 1918 era tão proeminente que pensar nas repercussões orgânicas do estresse seria algo tão impensável como querer preservar os
quadros de uma casa que está desabando.

Transportando estas sensações e impressões para o ano de 2020, começamos a pensar acerca de semelhanças e diferenças em relação a 1918. E não temos muitas dificuldades na apresentação dos argumentos. Vejamos:

1) Existe consenso que 2020 tem sido um ano atípico, pois começou repleto de expectativas positivas em muitos setores e terminará em meio a incertezas;

2) Estamos enfrentando uma guerra ou até algumas guerras em 2020 —ainda que não haja fuzis e derramamento de sangue, estamos diariamente "lutando" contra números crescentes e decrescentes de casos de covid-19, além da luta contra um ser microscópico que burla a todo momento os radares da medicina;

3) O vírus da gripe espanhola se espalhou graças a falta de conhecimento e infraestrutura. A covid-19 muitas vezes se espalha porque, a despeito das informações de alerta estarem disponíveis, algumas pessoas exercem a irresponsabilidade em meio a infraestrutura que um século depois ainda permanece precária em muitos lugares do Brasil e do mundo;

4) Em 1918, o "remédio" para a gripe espanhola era usar máscara e cuidar da alimentação —em 2020, ainda não temos remédio específico para a covid-19 e continuamos a priorizar o uso de máscaras, cuidar da imunidade através da alimentação e correr desenfreadamente para desenvolver uma vacina;

5) O frio europeu de 1918 facilitou a propagação da gripe espanhola em maiores proporções. Em 2020, o frio europeu também tem sido marcado pela retomada pronunciada de casos de covid-19;

6) Em 1918, pouco se sabia se nosso organismo produzia anticorpos e definitivamente adquiria imunidade. Em 2020 quais certezas temos sobre a covid-19? Há pessoas que já foram contaminadas pelo coronavirus e não produziram um mísero anticorpo; há pessoas jovens e aparentemente saudáveis que sucumbiram a letalidade da covid-19 e há aqueles que não tiveram nenhum sintoma;

7) Nos últimos meses de 1918, houve preocupações, incertezas e angústias quanto ao seguimento da vida em 1919 e na continuidade daquele século. Os últimos meses de 2020 serão dias de reflexão extrema, dias de um estresse diferente e mais acentuado, pois a humanidade precisa de alguma forma reagir sem relegar a vida e a saúde a patamares inferiores;

8) A humanidade, nos últimos meses de 2020, tem outra roupagem intelectual e financeira —não temos mais limites, já fomos à Lua, já descobrimos muitas coisas sobre a Terra e outros planetas, a tecnologia aproximou o Oriente ao Ocidente, executamos transações financeiras sem ir aos bancos e manuseando criptomoedas, estamos discutindo as aplicações da telemedicina e inteligência artificial nos processos do cotidiano, nossos sonhos estão mais próximos da realidade, o estresse é infinitamente maior do que em outras épocas;

9) Nos últimos meses de 1918, as preocupações eram como controlar a gripe espanhola e quais seriam os rumos socioeconômicos desta pandemia e da Primeira Guerra Mundial. Nos últimos meses de 2020, nossas preocupações são quando teremos uma vacina para o coronavirus, "lockdown" ou "mini-lockdown", tomar a vacina chinesa seria arriscado ou não, como será a inflação em 2021, quais sequelas físicas e emocionais a pandemia da covid-19 deixará para a humanidade, a pandemia da COVID-19 terá uma data para terminar ou teremos de continuar navegando em mares revoltos;

10) A pandemia da covid-19 em 2020 determinou a pandemia do estresse, principalmente nestes últimos meses do ano.

Portanto, posso afirmar que o nível de estresse que estamos enfrentando nestes últimos meses de 2020 tem sobrepujado a maioria dos anos anteriores e certamente será mais importante que nos próximos anos.

Caberá a nós todos buscarmos hábitos de vidas saudáveis e apoio médico para superarmos todas estas contingências. Não escolhemos passar por tudo isto em 2020, aconteceu e temos de conviver com esta situação.

Considerando que o estresse excessivo pode até matar, precisamos repensar nossas ações, reorganizar nossas estratégias e seguir adiante com nossos planos e sonhos, sempre colocando a saúde como foco principal.

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.