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Edmo Atique Gabriel

Nem toda dor no peito é infarto: podem ser gases; entenda a diferença

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

14/11/2020 04h00

Sentir dor é uma das coisas mais desagradáveis para um ser humano. O sono fica prejudicado, as atividades laborais são interrompidas e as atividades de lazer praticamente desaparecem. A dor no peito ou no tórax surge como um tipo de dor extremamente preocupante e angustiante, tendo em vista que a primeira impressão inevitavelmente remonta a um problema de coração, como um infarto, por exemplo.

Quando uma pessoa apresenta dor no peito, ela já começa a imaginar que está tendo um infarto e que corre sério risco de sucumbir e morrer. O desespero se instala, inicia-se uma verdadeira maratona cujo destino é o hospital mais próximo, na tentativa de encontrar uma solução rápida para o problema; mais do que isso, encontrar a salvação para este suposto infarto que está acometendo o coração e encurtando o tempo de vida.

No entanto, quando esta pessoa chega ao hospital para ser avaliada, o diagnóstico de infarto do coração pode não ser confirmado e, de forma absolutamente intrigante, recebe a notícia de que o acúmulo de gases no tubo digestivo pode ser a causa da dor no peito.

Recebe orientações medicamentosas para aliviar este acúmulo de gases e volta para casa, por um lado aliviada por não ser algo grave como um infarto do coração e, por outro lado, insegura quanto ao fato de gases oriundos da digestão causarem uma dor no peito tão forte e tão angustiante.

Dessa forma, a primeira questão a ser feita seria: os gases produzidos durante nossa digestão podem realmente causar uma dor no peito e simular um quadro de infarto do coração? A reposta é sim!

Mas vamos entender um pouco melhor —os órgãos da digestão destacam-se pela capacidade de contração e de distensão. A medida que ocorre o acúmulo de gases e considerando que estes gases geralmente são ácidos, órgãos como esôfago, estômago e intestinos tendem a distender e contrair de forma mais vigorosa, na tentativa de expulsar estes gases.

Como nem sempre este processo expulsivo dos gases é imediato, grandes bolhas de gás começam a causar certo grau de inflamação nos órgãos da digestão, produzindo dor em diferentes locais do corpo, como abdome inferior, abdome superior e no tórax.

A dor torácica é proveniente dos gases que se deslocam dos intestinos e do estômago em direção a boca. A intensidade e localização desta dor torácica podem ser tão marcantes que a sensação se assemelha a um quadro de infarto do coração, obrigando a literalmente correr até o hospital mais próximo em busca de ajuda imediata.

Diante deste cenário, pensando em prevenir este acúmulo de gases durante a digestão e reduzir a necessidade de realizar exames cardiológicos na emergência, surge a segunda questão: por que ocorre este acúmulo exagerado de gases durante o processo digestivo?

Três situações podem ser apontadas como importantes fatores causais —estresse emocional, ingestão de ar durante a alimentação e os erros alimentares.

Na vigência do estresse emocional, nossos órgãos da digestão produzem quantidade maior de ácidos, os quais, por sua vez, facilitam a formação de grande quantidade de gases. O estresse emocional está associado ao aumento de alguns hormônios como adrenalina, noradrenalina e cortisol, os quais também favorecem esta produção acentuada de ácidos e gases.

Um dos hábitos mais inadequados durante as refeições é comer e falar ao mesmo tempo, pois favorece a ingestão de significativa quantidade de ar. Mesmo que os alimentos ingeridos sejam saudáveis, o simples hábito de comer e falar predispõe ao ingresso de ar em nossos órgãos digestivos, com subsequente acúmulo de gases.

No tocante aos erros alimentares, é muito importante destacar que a ingestão exagerada de bebidas gaseificadas e alimentos conhecidos como FODMAP está diretamente relacionada ao acúmulo exagerado de gases.

Os refrigerantes e algumas bebidas alcoólicas representam as principais bebidas gaseificadas e, sempre que possível, devem ser evitados e substituídos por água e sucos naturais. Os alimentos conhecidos como FODMAP são aqueles com alto potencial de fermentação e consequente produção de muitos gases durante a digestão.

Os principais alimentos FODMAP são carboidratos que não são digeridos facilmente por nosso trato digestivo, como alguns tipos de farinha, massas e grãos.

Considerando então que os gases acumulados nos órgãos da digestão podem causar dor no peito, a terceira e mais importante questão seria: como diferenciar a dor no peito causada por um infarto daquela dor no peito causada pelo acúmulo de gases?

De forma muito objetiva e prática, podemos dizer que a dor no peito típica de um infarto tem intensidade muito forte, assemelha-se a uma sensação de aperto, tem irradiação para o braço esqueço e pode ser acompanhada de suor frio, náuseas e vômitos.

Além disso, a dor torácica de origem cardíaca não melhora com a simples eliminação de gases ou mesmo por meio de medicamentos com ação antiácida. Por outro lado, a dor no peito causada pelos gases melhora com a eliminação dos mesmos, melhora com uso de medicamentos antiácidos e não tem irradiação típica.

A principal mensagem deste debate acima é salientar que podemos ter diversos fatores causais para uma dor no peito e que alguns destes fatores podem ser suficientes para simular um quadro de infarto do coração. O acúmulo de gases durante a digestão enquadra-se nesta categoria, muitas vezes levando uma pessoa a buscar a emergência cardiológica para fazer exames com o propósito de se obter o diagnóstico diferencial.

A dor no peito provocada por um infarto do coração tem algumas facetas mais típicas e precisamos conhecê-las para saber como proceder.

Do ponto de vista preventivo, a correção de hábitos e a mudança de alguns padrões alimentares serão essenciais para minimizar este superdimensionamento da dor torácica causada pelos gases da digestão.

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.