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Edmo Atique Gabriel

Intestino bom impacta em coração saudável; entenda relação entre os órgãos

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

31/10/2020 04h00

Pode parecer estranho correlacionar o intestino com o coração. Durante décadas havia o conceito de que a função intestinal era exclusivamente ligada ao metabolismo dos nutrientes. O intestino, na verdade, era compreendido como mais um órgão, não era tão valorizado e ainda faltavam evidências acerca da variedade de funções que ele desempenha.

O intestino humano é habitado por uma quantidade imensurável de bactérias, com diferentes caraterísticas e ações, compondo o que se conhece como microbiota ou flora intestinal —como se dizia antigamente. Estas bactérias desempenham funções imprescindíveis para nossa digestão e também para nossa saúde cardiovascular.

Não fiquem impressionados! Quis dizer exatamente isso: as bactérias do intestino são essenciais ao bem-estar cardiovascular. Sem um adequado equilíbrio, tanto quantitativo como qualitativo, a microbiota intestinal não consegue ser nossa aliada na prevenção das doenças cardiovasculares.

Alguns fatores podem causar desequilíbrio da microbiota intestinal, situação conhecida como disbiose. O uso inadvertido de antibióticos é uma causa frequente de disbiose intestinal, visto que pode produzir constipação ou diarreia e, dessa forma, o contingente de bactérias protetoras para o coração diminui significativamente.

Também são fundamentais para adequada constituição da microbiota intestinal —a dinâmica do parto (normal ou cesárea) e o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida.

Explicando melhor: no parto normal, a criança pode ter contato e maior exposição às bactérias do corpo materno, influenciando decisivamente na composição da microbiota intestinal da criança. Quanto a questão do aleitamento materno, muitos estudos demonstram que o leite materno auxilia na constituição de uma microbiota intestinal equilibrada e protetora contra diversas doenças como alergias, distúrbios neurológicos e doenças cardiovasculares.

Intestino - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

O infarto do coração está diretamente relacionado ao desenvolvimento de aterosclerose, ou seja, o acúmulo progressivo de placas de gordura dentro dos vasos sanguíneos. Embora os hábitos alimentares sejam determinantes para maior agregação de gordura nos vasos sanguíneos, a microbiota intestinal também é essencial na metabolização e eliminação de resíduos da nossa alimentação.

Dessa forma, uma microbiota intestinal desequilibrada, mesmo com uma dieta balanceada, pode favorecer o desenvolvimento da aterosclerose e maior risco de infarto do coração e AVC.

Muitos estudos destacam que a microbiota intestinal dos indivíduos diabéticos é diferente quantitativa e qualitativamente da microbiota dos indivíduos não-diabéticos. Alguns fundamentos do processo patológico do diabetes, como a resistência à insulina, podem ser agravados por uma microbiota intestinal desequilibrada.

A obesidade, muitas vezes influenciada pela maior resistência à insulina, também seria outro importante problema indiretamente causado por uma microbiota desequilibrada.

Considerando que o diabetes e a obesidade são fatores causais e agravantes das doenças cardiovasculares, saber que estes dois problemas podem ser abordados utilizando esta visão sobre a microbiota intestinal, seria muito prudente e propício.

Regular a microbiota intestinal poderia reduzir o risco de desenvolver diabetes, resistência à insulina e obesidade e, subsequentemente, atenuar a ocorrência de um infarto do coração e um AVC.

Há, também, evidências que mostram diferenças entre a microbiota intestinal de pessoas com hipertensão arterial e a microbiota de não hipertensos. Mesmo a hipertensão arterial agregando fatores causais de origem genética, o padrão da microbiota intestinal pode determinar maior ou menor acúmulo de resíduos metabólicos, como sais e ácidos, que são responsáveis pela retenção líquida e aumento da pressão arterial.

Diante do impacto de uma microbiota intestinal equilibrada na saúde cardiovascular, algumas medidas devem ser adotadas para preservar esta microbiota, tanto qualitativa como quantitativamente:

  • aumentar o consumo de fibras por meio de frutas, cereais e vegetais;
  • manter hidratação diária de 2-3 litros ao dia;
  • evitar consumo exagerado de bebidas alcoólicas;
  • evitar tabagismo;
  • manter atividade física regular;
  • reduzir consumo de alimentos condimentados e gordurosos;
  • reduzir consumo de carboidratos baseados em açúcares simples;
  • evitar dietas ácidas, baseadas em consumo elevado de carne vermelha;
  • não usar antibióticos de forma inadvertida.

Por fim, uma das medidas mais modernas para melhorar a qualidade da microbiota intestinal tem
sido a utilização de produtos prebióticos, probióticos e simbióticos. Os prebióticos englobam fibras de origem vegetal, que funcionam como nutrientes para as bactérias da flora intestinal. Os probióticos são grupos de bactérias protetoras que podem ajustar e equilibrar a microbiota. Os produtos simbióticos reúnem as propriedades prebióticas e probióticas.

Atualmente, quando se estabelece um tratamento para as doenças cardiovasculares, deve-se considerar o papel da microbiota intestinal. Buscar restabelecer continuamente a quantidade e a qualidade das bactérias da flora intestinal é um importante princípio para obtenção de uma melhor saúde cardiovascular.

O intestino não pode ser visto como mais um órgão do corpo; o intestino e sua microbiota podem impactar a incidência de doenças cardiovasculares mas, para isto, precisamos adotar algumas medidas no dia a dia e estarmos atentos sempre para esta conexão entre intestino e coração.

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.