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Edmo Atique Gabriel

Alimentação rica em ômegas protege o coração: veja 5 perguntas sobre o tema

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

24/10/2020 04h00

Quando se discute prevenção de doenças cardiovasculares, pode-se afirmar que não existe milagre. Não existe uma medicação miraculosa nem tampouco um suplemento alimentar que possa, isoladamente, modificar o paradigma de tantos agravos cardiovasculares, como o infarto do coração, AVC, arritmias e insuficiência cardíaca.

A prevenção dos agravos cardiovasculares consiste em adotar um conjunto de medidas saudáveis, baseadas em princípios alimentares e atividade física regular. Alguns suplementos como os óleos derivados de peixes —conhecidos como ômegas— seriam úteis para prevenir a ocorrência dos eventos cardiovasculares, mas muitos estudos demonstraram que os mais relevantes benefícios dos ômegas seriam na prevenção secundária, ou seja, quando a doença já apresenta manifestações iniciais e estas precisam ser atenuadas, para não resultar em complicações maiores.

Dentre as dietas que mais promovem bem-estar a saúde cardiovascular, encontra-se a dieta mediterrânea, na qual são consumidos em grande quantidade alimentos como peixes de água fria, castanhas, sementes, cereais, azeite de oliva, azeitonas e muitos vegetais. Boa parte dos benefícios desta dieta mediterrânea deriva da presença dos ômegas e seu efeito anti-inflamatório.

Uma das curiosidades relativas aos ômegas diz respeito aos esquimós da Groelândia, indivíduos que habitavam áreas extremamente gélidas do planeta e que basicamente se alimentavam de peixes de águas profundas, como salmão e atum. A despeito destes peixes serem considerados gordurosos, os esquimós apresentavam longevidade invejável e número reduzido de eventos cardiovasculares.

As propriedades dos ômegas baseiam-se principalmente no seu efeito antioxidante e anti-inflamatório. Além disso, os ômegas são fundamentais para síntese de hormônios, para qualidade estrutural dos ossos, para proteção e estabilidade das membranas das células, para funcionamento dos neurônios e preservação do sistema imunológico.

Os ômegas são estruturas químicas divididas em três subtipos, conhecidos como ômega-3, ômega-6 e ômega-9.

O ômega-3 é um tipo de óleo encontrado nos peixes de água fria, castanhas, sementes e apresenta efeitos anti-inflamatórios predominantes.

O ômega-6 pode ser encontrado em grãos como milho e soja, mas apresenta alguns efeitos inflamatórios, não devendo ser consumido em excesso e, sempre que possível, deve ser consumido conjuntamente com o ômega-3.

Por fim, o ômega-9 consiste em um óleo de características mais neutras, com maior propensão para os efeitos anti-inflamatórios e geralmente presente em peixes de águas frias, sementes e algumas frutas.

Esta conceitualização é essencial para a correta seleção do melhor suplemento de ômegas —teria de ser uma composição de ômega-3 com ômega-6 ou então uma composição das três frações conjuntamente. Como o ômega-3 apresenta o maior poder anti-inflamatório, também poderia ser consumido de forma isolada, na forma de suplemento.

Um importante estudo realizado no Japão, denominado de estudo JELIS, analisou pacientes com níveis elevados de colesterol quanto ao tratamento exclusivo com medicamentos (estatinas) e quanto ao tratamento com estatinas e suplementação com ômegas.

As conclusões deste estudo apontam para os benefícios da suplementação com ômegas para melhorar os sintomas cardiovasculares e reduzir a necessidade de cirurgia cardíaca ou mesmo angioplastia. Por outro lado, este estudo deixa claro que a suplementação com ômegas não atenua substancialmente a mortalidade cardiovascular.

Considerando que boa parte dos principais estudos segue esta linha do estudo japonês, ou seja, destacando os efeitos positivos dos ômegas, mas pontuando algumas limitações, gostaria de deixar algumas questões com respostas acerca deste assunto polêmico:

1) O tratamento do colesterol elevado pode ser feito com o uso de ômegas?
A função dos ômegas é auxiliar na prevenção ou também colaborar no tratamento medicamentoso do colesterol elevado. Não seria correto dizer que o tratamento do colesterol elevado está sendo feito com os ômegas, uma vez que estes teriam um papel complementar.

2) A suplementação com os ômegas pode causar efeitos colaterais?
Há pessoas que podem apresentar basicamente dois efeitos colaterais: reação alérgica e alterações digestivas. Deve-se salientar que não são efeitos colaterais frequentes e que, quando presentes, a suplementação com ômegas deve ser suspensa.

3) Qual a dose diária recomendada para o consumo de ômegas?
Em geral, a quantidade mínima recomendada é de 1 grama ao dia. Segundo orientação médica, esta quantidade pode ser ampliada para até 4 gramas ao dia.

4) Deve-se dar preferência para alimentos enriquecidos com ômegas?
Sim, trata-se de uma forma interessante de aproveitar os benefícios dos ômegas, quando estes fazem parte da composição de leite, pães, margarina e inclusive os chocolates.

5) Existe algum problema em usar um suplemento de ômegas associado com vitaminas?
Do ponto de vista da associação entre ômegas e vitaminas, não há problemas. Aliás, muitos suplementos de ômegas estão enriquecidos com vitaminas D, E e tocoferol, potencializando a capacidade antioxidante do suplemento. A questão crucial seria avaliar se esta associação entre ômegas e vitaminas resultou em menores concentrações de ômegas.

A questão final e certamente mais decisiva seria efetivamente deixar esclarecido, como uma mensagem final: vale a pena priorizar em nossa dieta do dia a dia alimentos ricos em ômegas e também usar suplementos de ômegas?

Analisando os principais estudos e também valorizando muitas evidências epidemiológicas, a resposta seria seguramente afirmativa. Os ômegas devem, sim, ser priorizados na alimentação ou então suplementados, mas tendo em mente que sua função não é protagonizar o controle do risco cardiovascular, mas auxiliar na prevenção e tratamento de alguns agravos cardiovasculares.

Seguindo o conceito de que muitos alimentos são remédios naturais, as principais fontes de ômegas, sobretudo aquelas encontradas na dieta mediterrânea, deveriam estar sempre em destaque na rotina alimentar das pessoas.

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.