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Café, chocolate e álcool: calamidade alimentar em tempos de home office

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Imagem: iStock
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), conselheiro de Comissão Nacional de Residência Médica do MEC (Ministério da Educação), especialista em cirurgia cardiovascular, com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic, e pós graduado em nutrologia médica pela ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia)

Colunista do UOL

26/07/2020 04h00

Estamos vivenciando um estado de calamidade pública devido a pandemia da covid-19. Até quando? Não sabemos ainda, e esta incerteza gera apreensão, ansiedade, depressão e muita angústia.

Cada pessoa busca de alguma forma suportar os impactos emocionais da pandemia e, ao mesmo tempo, manter sua produtividade laboral, por meio das atividades em home office.

No entanto, o "silêncio" do home office é verdadeiramente desconfortável para qualquer pessoa. Ainda que de forma inconsciente, trabalhar ininterruptamente em casa, há quatro meses, distante de outras pessoas e numa rotina sem aquela agitação motivacional, promove uma clara necessidade de descarregar as tensões desta mudança de estilo de vida em algum hábito, seja alimentar ou comportamental.

Este estado de confinamento nos aproxima de alguns hábitos alimentares perigosos, com desmembramentos prejudiciais para nosso corpo e nossa saúde. Muitos destes hábitos até podem, sob supervisão de um profissional de saúde, desempenhar efeitos benéficos em nosso organismo, mas a dificuldade de contato presencial entre as pessoas e profissionais como médicos e nutricionistas, tem limitado significativamente este entendimento.

Os principais alimentos e bebidas em questão seriam café, chocolate, refrigerantes e bebidas alcoólicas.

A falta de entendimento e o consequente abuso destes alimentos/bebidas podem causar uma verdadeira calamidade alimentar, com sérios efeitos deletérios à nossa saúde. Vejamos:

1) Café

Xícara de café - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

O café deveria ser consumido preferencialmente na primeira refeição do dia, visando desfrutar do importante efeito energizante desta bebida. Em termos quantitativos, uma ou duas xícaras de café de tamanho pequeno ou médio, com ou sem leite, seriam suficientes para obtenção deste efeito energizante.

No entanto, o ambiente de trabalho em home office induz as pessoas a consumir café em grande quantidade, durante o dia e muitas vezes no período noturno, desencadeando alguns infortúnios como arritmia cardíaca, crises de hipertensão arterial, irritabilidade, sintomas de gastrite e insônia.

2) Chocolate

Cacau e chocolate - iStock - iStock
Imagem: iStock

Sem demagogia e sem clichês, podemos dizer que chocolate é bom e gostoso a qualquer dia e hora. Isso muitas vezes pode levar as pessoas a desenvolver um vício. Nestes tempos de home office, este cenário tem sido cada vez mais frequente.

O chocolate rico em cacau tem propriedades mais benéficas que o chocolate branco. O chocolate rico em cacau tem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, enquanto o chocolate branco agrega maior teor de gordura, mas é claro que a quantidade consumida vai determinar os efeitos.

Deve-se utilizar o chocolate com certo grau de restrição, sobretudo em pessoas diabéticas e obesas, sendo que o consumo de 3-4 quadrados pequenos por dia seria salutar para maioria das pessoas. Ou também consumir apenas alguns dias da semana, numa quantidade um pouco maior, desde que não se torne um vício incontrolável.

3) Refrigerantes

Quem tem consumido excesso de refrigerantes nestes quatro meses de trabalho em casa, certamente poderá apresentar problemas futuros como obesidade, osteoporose, diabetes e diversas alterações digestivas. Os refrigerantes são bebidas palatáveis, mas que não agregam quantidade significativa de nutrientes a nossa dieta. Trata-se mais de um hábito prazeroso do que uma medida essencial ao nosso suprimento energético.

4) Bebidas alcoólicas

Álcool, cerveja - iStock - iStock
Imagem: iStock

O consumo de álcool historicamente está relacionado ao alívio das tensões e instabilidade emocional. Logo, em tempos de pandemia e ficando mais tempo em casa, seja trabalhando em home office ou mesmo realizando alguma atividade de lazer, o consumo de bebidas alcoólicas tornou-se mais frequente.

Tecnicamente falando, bebidas alcoólicas como vinho, cerveja e alguns destilados, possuem algumas vitaminas e proteínas em sua composição. Quer dizer então que bebidas alcoólicas seriam opções prioritárias no tocante às nossas necessidades nutricionais diárias? Obviamente, não. Longe disto!

E o perigo está neste limite tênue entre as propriedades benéficas das bebidas alcoólicas e o abuso das mesmas. O vinho tinto pode ser utilizado como elemento protetor da função cardíaca, uma vez que é rico em flavonoides, substâncias com importante efeito anti-inflamatório.

A cerveja pode ser uma fonte importante de vitaminas do complexo B. A questão crucial é que as pessoas geralmente consomem as bebidas alcoólicas por uma questão de hábito prazeroso e muito pouco pelas propriedades benéficas.

Hábito prazeroso implica em risco maior de abusos e exageros, podendo resultar em dependência e vários agravos como cirrose hepática, pancreatite, câncer, arritmias cardíacas e diabetes. Destacadamente o vinho e a cerveja, se consumidos de forma moderada, cerca de 2-3 vezes por semana, poderão agregar benefícios a saúde como um todo, mas ressaltando que não são e jamais serão as fontes nutritivas prioritárias em uma dieta equilibrada.

Todos nós, independente de faixa etária, sexo, nível social ou profissão, estamos sujeitos a uma calamidade alimentar em tempos de pandemia e de home office, ao consumirmos de forma descontrolada alimentos e bebidas como o café, chocolate, refrigerantes e bebidas alcoólicas.

A pandemia do coronavírus por si só já é uma calamidade pública e isto já basta. Não podemos criar mecanismos para uma calamidade alimentar em nossos hábitos diários. O aprimoramento do trabalho em home office talvez seja um dos poucos legados positivos de um momento historicamente fatídico da humanidade.

Nós, seres humanos, não podemos conseguir a proeza de converter um raro aspecto positivo de uma pandemia em uma calamidade alimentar com implicações futuras potencialmente irreversíveis.