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Tenho dor no peito: será que é infarto? Nem sempre! Saiba o que pode ser

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), conselheiro de Comissão Nacional de Residência Médica do MEC (Ministério da Educação), especialista em cirurgia cardiovascular, com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic, e pós graduado em nutrologia médica pela ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia)

Colunista do UOL

12/07/2020 04h00

Quando se discute sobre o infarto do coração, a primeira questão que vem à mente é uma forte sensação de medo, pois o conceito de infarto geralmente está muito próximo do conceito de morte. As pessoas que já infartaram, relatam que sentiram uma dor extremamente opressiva no peito, com irradiação para o braço esquerdo e tiveram de correr para o hospital. No final das contas, foram submetidas a um cateterismo cardíaco para dilatação da artéria coronária entupida.

Este cenário é tão verídico que a sensação de dor no peito é inevitavelmente sinônimo de pânico exacerbado. Em geral, qualquer mínima sensação de dor no peito, principalmente do lado esquerdo, gera pavor nas pessoas e provoca verdadeiras aglomerações no consultório e pronto-socorro cardiológicos.

No entanto, a sensação de dor no peito nem sempre representa um infarto do coração. Existem outros diagnósticos que podem ser atribuídos a uma dor peito e, para isso, precisamos entender algumas particularidades e detalhes clínicos, para fazer as adequadas diferenciações.

Dessa forma, estarei elencando as principais causas de dor no peito, com algumas peculiaridades, diferenças clínicas entre si e possíveis estratégias de tratamento.

Vamos começar pela mais temida que seria exatamente o infarto do coração.

1) Infarto do coração

Dor no peito opressiva, intensidade muito forte, duração mais prolongada (acima de 30 minutos), com irradiação para o braço esquerdo, podendo estar associada com sudorese fria, náuseas e vômitos. Esta dor não melhora com alimentação, uso de antiácidos para o estômago e nem fazendo alongamentos com os braços.

A conduta seria ir imediatamente ao pronto-socorro e, durante o trajeto, recomenda-se ingerir de um a dois comprimidos de aspirina, que pode auxiliar o fluxo sanguíneo na artéria entupida. Já no hospital, a ideia é realizar cateterismo cardíaco para dilatar o segmento arterial que está obstruído.

2) Esofagite

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Muitas pessoas convivem com problemas digestivos como o refluxo gastroesofágico. Neste caso, o conteúdo ácido do estômago regurgita para o esôfago, órgão localizado atrás do osso esterno —osso que está no meio do nosso tórax. Assim, ocorre inflamação importante do esôfago —esofagite— sendo a manifestação principal uma sensação de dor atrás do esterno, uma dor chamada de retroesternal. Esta dor pode ser aliviada com a correção de hábitos alimentares e o tratamento se faz com medicamentos que diminuem esta intensa acidez.

3) Mialgia/Costocondrite

A estrutura de nosso tórax é composta de músculos, ossos, costelas e cartilagens. A realização repetida de esforço físico, como carregar peso e postura inadequada ao sentar ou deitar, pode acarretar um processo inflamatório destes elementos anatômicos citados.

Como resultado, surge uma dor no peito muito incômoda, associada aos movimentos respiratórios e também a qualquer movimento dos braços. Muitas vezes, as pessoas alegam que, quando respiram de forma mais profunda, sentem como se "cortasse" a respiração, em virtude da forte dor no peito. O tratamento inclui correção da postura, anti-inflamatórios e relaxantes musculares.

4) Pericardite/Pleurite

Nosso coração é revestido de uma membrana denominada de pericárdio. Nossos pulmões, por sua vez, são revestidos de uma membrana conhecida como pleura. Em casos de infecções bacterianas ou virais, tanto o pericárdio como a pleura podem inflamar e isto gera dor no peito também. O detalhe principal é que geralmente esta dor no peito estará associada com febre, mal-estar geral, perda de apetite e prostração física. O tratamento deve ser feito com anti-inflamatórios e antibióticos.

5) Ansiedade

Ansiedade gera dor no peito? E como gera! Basta estar vivendo o fatídico ano de 2020 e a pandemia do covid-19, com seus desdobramentos financeiros e emocionais tremendamente impactantes na vida das pessoas.

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Não há como não ter dor no peito, sabendo que a doença se espalhou pelo mundo todo, os problemas financeiros se agravaram e as perspetivas de uma vacina ainda estão indeterminadas. Esta carga emocional pode ser percebida nas pessoas com queixa de dor no peito, de forma constante ou intermitente, sem associação com esofagite, infarto, esforços físicos e pericardite/pleurite.

A dor no peito causada pela ansiedade é tratada com psicoterapia, ansiolíticos, antidepressivos e anti-inflamatórios. E somente o tempo poderá trazer de volta o ânimo e a motivação para as pessoas.

A dor no peito causada pelo infarto do coração é a mais temida. Mas, nos dias atuais, a dor no peito, como produto de uma ansiedade e pânico generalizados, ganhou destaque e merece muita atenção das pessoas e dos próprios médicos.

A dor no peito pode ser multifatorial, as pessoas devem reconhecer algumas particularidades de cada tipo de dor no peito, para saber como agir e o que fazer. Existem estratégias de tratamento que se ajustam a cada tipo de dor no peito, procure seu médico e ele saberá qual a melhor medida terapêutica a ser adotada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.