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A pandemia da insônia e da sobrecarga do coração em tempos de covid-19

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Imagem: iStock
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), conselheiro de Comissão Nacional de Residência Médica do MEC (Ministério da Educação), especialista em cirurgia cardiovascular, com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic, e pós graduado em nutrologia médica pela ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia)

Colunista do UOL

31/05/2020 04h00

O nível de estresse emocional tem atingido número significativo de pessoas neste período de pandemia pela covid-19. Esta labilidade emocional tem se manifestado sob a forma de repercussões digestivas, cutâneas, cardíacas e, destacadamente, insônia. Embora a pandemia pela covid-19 ainda esteja ativa, começamos a identificar outro tipo de pandemia que está se sobrepondo —a pandemia da insônia e da sobrecarga cardíaca.

O sono noturno representa o período de descanso de nosso cérebro, em conjunto com o arrefecimento natural de nossas funções orgânicas. Durante a madrugada, nosso metabolismo diminui, as reações químicas orgânicas são mais lentas e, como consequência, alguns sinais vitais, como a pressão arterial e a frequência cardíaca, estabilizam-se em níveis mais baixos.

A observação da frequência cardíaca, durante o período do sono noturno, representa um dos parâmetros mais fidedignos no que tange a redução fisiológica do metabolismo corpóreo. Para exemplificar, uma pessoa saudável, com boas condições gerais, apresenta ao repouso, durante o dia, batimentos cardíacos variando de 60 a 80. Esta mesma pessoa, durante o período de sono noturno, apresentará batimentos cardíacos variando entre 40 e 45, sem nenhuma repercussão ou sintoma associado.

Como já assinalado, a pandemia da covid-19 tem acarretado diversas modificações no ritmo biológico de nosso corpo. A insônia tem acometido grande quantidade de pessoas neste momento difícil do Brasil e do mundo. As pessoas não têm conseguido desvincular-se da tensão diurna, das preocupações financeiras, do temor de uma eventual contaminação, e isto se traduz em horas irregulares de sono, horas insuficientes e sobressaltadas.

E o coração?

Da mesma forma que nosso cérebro precisa de descanso e o sono tem a função de prover este relaxamento, o coração humano requer período de 6 a 8 horas para se recuperar do trabalho intenso diurno e recarregar suas energias. Neste período de 6 a 8 horas de sono noturno, desde que haja tranquilidade, o coração humano recarrega suas energias, trabalhando com níveis de pressão arterial e frequência cardíaca mais baixos.

Quando uma pessoa enfrenta muitas noites de insônia, os níveis de pressão arterial e de frequência cardíaca permanecem compatíveis com o período diurno ou até mesmo atingem patamares mais elevados, gerando sobrecarga global do coração.

Muitos dias ou até meses de insônia desencadeiam alterações na estrutura e na função cardíacas. Do ponto de vista estrutural, ocorre aumento do tamanho do coração e muito frequentemente hipertrofia do miocárdio. Como resultado desta nova conformação estrutural, aumenta a chance de ocorrer arritmia cardíaca e disfunção de valvas cardíacas, além do risco aumentado para infarto do coração, derrame cerebral e insuficiência cardíaca.

Da mesma forma que estamos adotando medidas de prevenção e restrição para evitar a contaminação pela covid-19, temos de criar um protocolo de condutas para garantir a qualidade do sono noturno e, dessa forma, preservar nossa saúde cardiovascular.

Para isto, devemos começar por medidas não-farmacológicas, como dar preferência aos alimentos de fácil digestão e bebidas naturais no período noturno, evitando excesso de bebidas com cafeína, bebidas alcoólicas e bebidas gasosas.

Sopas em geral e alimentos pastosos devem ser mais empregados nas refeições noturnas. Também recomenda-se não dedicar as horas noturnas aos filmes de terror e muita tensão, dando preferência as músicas mais leves e bons livros.

Não sendo suficientes as medidas não-farmacológicas, deve-se, sob supervisão médica, utilizar medicamentos que possam reordenar o sono noturno e, indiretamente, permitir que nosso coração possa recarregar efetivamente suas energias, evitando crises hipertensivas e arritmias cardíacas durante a madrugada.

Uma das "vacinas" para a pandemia da insônia e da sobrecarga cardíaca, em tempos de covid-19, é modificar os hábitos alimentares e comportamentais, visando obter horas de sono noturno reparador e revitalizador.

Todos nós precisamos estar atentos a esta demanda para, assim, evitar problemas cardiovasculares futuros.